Aviso: Crítica sem spoilers!


Quando a humanidade e a moralidade são desafiadas pela política


Após 12 anos, o Superman voltou a ganhar um filme no cinema. Uma interpretação anterior vazia e cinza, dá lugar a cor, esperança e humanidade do Homem de Aço, nas mãos de James Gunn, que homenageia e moderniza um personagem icônico dos quadrinhos e das obras cinematográficas.

Igualmente a The Batman, Superman mira em uma espécie de reboot. A mudança na chefia da DC e a criação de um estúdio independente, colocou em primeiro lugar o maior super-herói já criado. O rosto da editora, ou melhor, o filho da DC, o Azulão tem a missão de dar pontapé ao DCU. Assim como em 1978, recai sob os ombros deste personagem a responsabilidade de ser figura importante para futuras obras, sejam da própria editora que o tem, quanto da editora que gostaria de tê-lo.

Em um primeiro momento, o filme em questão do Escoteiro teria como título Superman: Legacy. Esse legado não é mostrado em tela e a troca do título ajudou. Apenas “Superman” impacta mais. Demonstra a importância do personagem diante de tantos outros. Isto é, a grandeza que significa o nome Superman, pois, desde uma criança de 10 anos a um idoso de 80 anos, reconhece quem é e o que ele representa. O símbolo Superman não está preso a uma geração só ou segmento, mas presente ante a um público de todas as idades.

A trama acompanha o super-herói já em ação, poucos anos após começar a defender Metropolis de grandes ameaças. Enquanto não está como Superman, é Clark Kent (David Corenswet), repórter atrapalhado do Planeta Diário e namorado de Lois Lane (Rachel Brosnahan). Mas um perigo surge, quando um conflito armado está prestes a acontecer e vilões como Lex Luthor (Nicholas Hoult), o querem morto por representar uma ameaça.

Político e necessário, o filme trabalha diversos dilemas do personagem, entre sua humanidade, vontade de ajudar e a esperança em manter sua fé nas pessoas, mesmo que más, possam se tornar boas. O longa-metragem trata de um imigrante, assim como o diretor James Gunn definiu, em um planeta diferente, desconhecido, com ele precisando conhecer e ser ensinado sobre costumes. Essa é a história que tange o personagem desde sua criação, com uma família adotiva e humana, sua busca por sabedoria e verdade, e sua luta por justiça para os povos de todas as nações.

Assim como dirige, Gunn é o roteirista do projeto. Ele conduz a obra com competência, mas acaba deslizando quando precisa colocar muitas informações em tela. O longa tem pouco mais de 2 horas, e isso, com certeza, acaba sendo um problema. Se tirar o fato de que os créditos e as duas cenas pós-créditas possuem, juntas, cerca de 6 a 8 minutos, o filme, por si só, teria 1 hora e 55 minutos. Embora a curta duração seja um pequeno problema devido a quantidade de personagens para trabalhar, o maior triunfo do projeto são os heróis e vilões presentes. Cada um que aparece, desde o Lanterna Verde Guy Gardner (Nathan Fillion) até Lex Luthor, possui texto o suficiente para uma apresentação divertida, corajosa ou inspiradora.

Gunn mistura diversas personalidades do Homem de Aço para criar o seu próprio, assim como com o texto de Lois. Vagamente se inspira em quadrinhos clássicos, animações e outros projetos live-action, pois precisa provar que o Superman ainda é o super-herói que merece os holofotes. O cineasta constrói com coerência cada personalidade, desde o Superman com esperança e bondade, até uma Lois Lane incisiva na investigação e afiada em perguntas, e um Lex Luthor genioso, rei da estratégia, mas com ódio mortal por querer ser ele o centro das atenções. Nada é caricato, exceto, é claro, a cueca vermelha do Super ou o cabelo do Lanterna Verde – e que quadrinesco.

É claro que o filme não possui somente pontos positivos, mas problemas de organização em sequências que era necessário ter o freio de mão puxado. A todo momento, o longa-metragem pisa no acelerador e vai subindo de marcha e velocidade. Poucos são os minutos que o espectador pode respirar e poder apreciar uma cena do Clark Kent atrapalhado no jornal, como em Superman de 1978. Este é justamente um dos assuntos negativos da obra, que não aproveita muito da experiência de repórter de Kent e somente um lado mais familiar, que ganha força em momentos decisivos. Além disso, mesmo que a dinâmica entre a redação do Planeta Diário com o Clark funcione, não foi o suficiente para um desenvolvimento mais abrangente na narrativa. Funciona, mas era preciso ter mais. A curiosidade fica para a sequência.

Um outro problema, mas que é amenizado, é justamente o uso da redação no terceiro ato, especialmente os minutos finais. Alguns dos personagens nem são tão necessários assim para o andamento da obra, mas Gunn exige um pouco de todos. O que ameniza isso é o dinamismo entre Perry, Jimmy Olsen, Cat Grant, Lois e outros. É claro, que o trabalho de jornalismo escrito, investigação e apuração dos fatos, ressoa aqui no decorrer da obra, e tem sua extrema importância. Assim como a dinâmica poderosa entre Superman e Krypto, a redação está em comunhão um com o outro, parecendo que todos pensam do mesmo jeito. Mas, quem, de fato, rouba com a dinâmica é o herói com seu cachorro. Mesmo que Superman e Lois funcione, a partir de uma atuação cativante e afiada de Brosnahan, é Krypto e o Homem de Aço que possuem força maior. A adição do animal à trama é tão importante quanto o protagonista.

Claro, que vários outros personagens estão presentes, e não há como deixar de lado o inteligentíssimo Sr. Incrível (Edi Gathegi), Guy Gardner e Mulher-Gavião (Isabela Merced). A Gangue da Justiça tem um espaço considerável para mostrar serviço. Um elemento que surpreende, também, é o Metamorfo de Anthony Carrigan. Um trabalho de elenco de apoio excelente, mas, com certeza, o destaque fica justamente para Gathegi – sua cena de luta é a melhor do filme. Os vilões de apoio, como a Engenheira (Maria Gabriela de Faría) também estão com uma minutagem regular para a obra e servem bem.

O elenco é preciso. Boas escolhas para um futuro da DC Studios. Não é necessário nenhuma mudança, e nem mesmo, de vertente para estar em tela. Corenswet representa o que é o Superman, desde sua bondade até a força que tem em seus pais, Jonathan e Martha. Brosnahan é incisiva e afiada como Lois Lane, sendo muito vertical no papel. Mas, a grande surpresa fica para Hoult, com uma interpretação visceral como Luthor e a melhor representação deste supervilão em tela. O elenco de apoio, também, é tão bom quanto o principal.

Em sinônimo de parte técnica, os efeitos de Superman são ótimos. Não há nenhum ponto negativo. Cenas de voo cativantes, batalhas massivas e destrutivas, salvamentos incríveis e o Krypto voando com sua capa vermelha. Houve tempo demais para uma pós-produção assertiva. Além disso, a fotografia deixa o filtro azul de lado, mas, em alguns momentos, o azul é colocado para uma tela, representando a esperança que o mundo tem no Superman. A trilha sonora de John Murphy e David Fleming também é boa, com batidas emocionantes e de tirar o fôlego em cenas de ação, mas nada marcante como o arranjo principal de John Williams. Ainda assim, é emocionante e reflexiva.

Por fim, Superman é um começo importante para a DC Studios. É um recomeço. Uma reconstrução. Um super-herói que põe à prova que pode e deve reconstruir o ânimo dos fãs. É o mesmo que, àquele que começou com o gênero há mais de 40 anos, possa recomeçar e dar um pontapé a um gênero desgastado pelo cansaço, projetos saturados e sem rumo para algo.


Veredito

Superman é despretensioso e com humor na medida certa. Explora os dilemas entre bondade, esperança e justiça, temas que tangem o Homem de Aço. Um filme necessário para o atual momento da DC e do gênero de heróis, é uma carta aberta emocionante ao mundo sobre não guerrear e odiar uns aos outros. O novo longa-metragem do Azulão voa para o alto e avante, com excelente elenco, interpretações, cenário gráfico e narrativa inteligente.

8/10


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