Aviso: Crítica sem spoilers!
Um thriller atmosférico que analisa a relação entre o isolamento juvenil e o risco metropolitano
A filmografia de Matheus Marchetti dentro do gênero fantástico se consolidou pela investigação das vivências queer associadas a um forte apelo tátil. Seus projetos anteriores operavam em escalas menores para discutir a fragilidade dos corpos e as pulsões da juventude, mas O Labirinto dos Garotos Perdidos propõe um salto estético focado no expressionismo urbano. A direção evita deliberadamente a estrutura mecânica dos thrillers de perseguição tradicionais, preferindo construir um arranjo puramente audiovisual.
A premissa nos situa em São Paulo, acompanhando o jovem Miguel (Giuliano Garutti). O drama ganha contornos enigmáticos quando ele chega à capital às vésperas do vestibular e busca hospedagem na residência de Pedro (Lucas Bocalon), um rapaz conhecido por meio de aplicativos de namoro. Encontros sucessivos se passam até que a dinâmica de afetos revela a ameaça invisível de um assassino em série que caça rapazes pela região. Mas essa metrópole não se comporta como um cenário urbano comum; suas ruas desertas na madrugada, cômodos misteriosos e o clima de mistério exalam um perigo constante que parece fundir o desejo físico e a violência, infectando a realidade ao redor.

Marchetti não economiza na densidade técnica de sua direção. O filme é um desfile de escolhas visuais e cromáticas marcantes, com neons azuis e cor-de-rosa recortando os cômodos misteriosos e um design de som composto por faixas que funcionam como uma linha guia para traduzir as motivações dos personagens. O uso recorrente de reflexos, espelhos e closes macroscópicos nas interações físicas reforça uma sensação de voyeurismo e desconforto sensorial constante. É um horror atmosférico, que se afasta proibitivamente da cartilha de sustos fáceis do terror comercial contemporâneo, mas que também evita a esterilidade visual do naturalismo televisivo.
Contudo, a ambição do diretor em criar um horror de autor com forte apelo artístico esbarra em oscilações tonais e falhas estruturais no roteiro. Há segmentos na narrativa, como um dos últimos encontros de Miguel que introduz uma inesperada carga cômica, que parecem pertencer a um longa-metragem diferente e servem temporariamente para quebrar o suspense da obra. O filme tenta se vender como um estudo introspectivo sobre os temores da carne, mas o roteiro desliza em diálogos que por vezes soam expositivos ou descolados do fluxo principal, gerando um estranhamento desnecessário antes do desfecho. As reações de certos personagens acabam reduzidas a tons caricatos, sabotando ligeiramente a seriedade exigida pelas sequências de perigo.
O grande triunfo da produção é, sem dúvida, a performance física e a evolução dramática de Giuliano Garutti. Mesmo navegando por uma sucessão de encontros bizarros e fetiches incomuns, ele consegue transmitir uma vulnerabilidade puramente corporal que remete aos dilemas da autodescoberta e do amadurecimento. É um trabalho impressionante de entrega e presença cênica. Embora o roteiro por vezes ofereça diálogos corriqueiros que de início causam estranheza no espectador, o magnetismo do protagonista compensa as pontas soltas, assegurando que o núcleo principal sustente a tensão e a atmosfera de mistério do início ao fim.
Filme assistido antecipadamente a convite da Filmicca
Veredito
O Labirinto dos Garotos Perdidos entrega um resultado técnico expressivo, amparado por uma direção de arte imersiva que utiliza o alto contraste e a saturação cromática de forma precisa. Entretanto, o filme falha ao não entregar uma uniformidade tonal perfeita em seu terço final. É um longa de suspense e fantasia que impressiona os olhos com seu banquete de neons e texturas, mas que se consolida como uma experiência singular sobre os prazeres e temores da juventude.
6/10
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