Aviso: Crítica sem spoilers!
Filme polonês surpreende com história leve, mas deixa a desejar no desenvolvimento de arcos dramáticos
“São José é forte, São José não falha. Não sei de onde virá, não como virá, mas sei que São José proverá”. Uma das frases mais conhecidas de devoção ao santo, pai adotivo de Jesus Cristo, é essa. O Guardião – Sob a Proteção de São José explora o tema da família como cerne da obra, mas o santo é ainda o protagonista estabelecido, mesmo que esteja somente no título e representado por imagens e pinturas.
O filme polonês segue a história de um jornalista de rádio e uma violinista, que tem o sonho de começar uma carreira internacional. No entanto, eles passam por dificuldades financeiras, gerando conflitos entre ambos. Enquanto o casamento entre os dois é conturbado e o amor parece ter um fim, Robert (Rafal Zawierucha) luta por sua carreira para um novo programa. Porém, quando Marcin (Radosław Pazura) aparece na vida de Dominika (Karolina Chapko), Robert sente-se perdido e longe do “até que a morte nos separe”.
Uma produção de apenas 90 minutos, o longa-metragem precisa correr contra o tempo para desenvolver arcos dramáticos e subtramas. Seus primeiros minutos já entregam boa parte da trama e de como se desenrolaria a obra até o seu terceiro ato, entre encontros e desencontros. Apesar da entrega parcial nos primeiros 20 minutos, o roteiro trabalha em uma perspectiva cristã, ao abordar e tratar como tema central a importância de São José entre paternidade, estrutura familiar e trabalho.
O diretor Dariusz Regucki erra ao não aprofundar o tema central da obra: o divórcio e a (re)união. No entanto, acerta fielmente ao destacar histórias de padres no campo de concentração em Dachau, imprimindo documentários dentro de um longa-metragem ficcional, com inspirações em fatos. Ao abrir essa porta, consegue aprofundar no tema sobre São José, e como a figura do pai adotivo de Jesus é importante e movimenta uma cidade e um santuário dedicado ao santo. A abordagem religiosa é um acerto e tanto no projeto.

Embora com certa minutagem para desenvolver a importância do santo, O Guardião – Sob a Proteção de São José esquece do básico: aprofundar o arco dramático principal. Tudo que envolve o casal que se separa no começo da obra é superficial. Enquanto cada um segue para um lado, o diretor não consegue trabalhar dois polos distintos por não focar em nenhum. Um é jornalista que tem um trabalho em mãos, certamente um católico relaxado, mas que conhece as dores de quem esteve em campos de concentração e de como São José é importante. A outra pessoa é violinista, quer seguir uma carreira sólida internacional, mas não luta para tal momento chegar. É claro que, de certa forma, o foco é na reconciliação, mas tudo acaba sendo um tanto corrido para explicar, linha por linha, e dar a profudidade necessária para um arco dramático mais coerente.
O elenco conta com um desgaste natural por causa do roteiro que não preparou o básico. Os atores, embora não tão conhecidos do grande público, fazem o que podem na medida do possível. O que mais é problemático é justamente a desorganização da montagem da obra. Ao longo de toda a duração, o público se dispersa em um ritmo acelerado, que sai de uma cena importante para uma coincidência um tanto exagerada.
Por fim, é perceptível a falta de cuidado em contar a história familiar, mas o cuidado amplo ao destacar dramas existentes de padres, que mesmo perseguidos pelos nazistas, mantiveram sua fé em São José e Deus. É uma história que peca na contação de ficção, mas acerta em cheio ao usar a fé para moldar uma narrativa.
Filme assistido antecipadamente a convite da Kolbe Arte
Veredito
O Guardião – Sob a Proteção de São José peca com uma história frágil e superficial, sem querer aprofundar o tema “separação e reconciliação”. Porém, o diretor Dariusz Regucki estabelece a fé como o motor central do projeto, conseguindo explicar memórias reais de sofrimento, angústia e manutenção da fé em Deus e São José.
6/10
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