Aviso: Crítica sem spoilers!
O filme é uma excelente reimaginação do clássico
Quando falamos do expressionismo alemão e sua importância para o cinema na Alemanha durante a década de 1920, é difícil não citar o clássico Nosferatu (1922), longa-metragem dirigido pelo icônico F. W. Murnau, pois essa pérola foi um dos maiores símbolos do movimento e criou os conceitos clássicos dos vampiros para o imaginário popular. Além disso, não podemos esquecer de sua intrigante história de bastidores que até hoje gera o fascínio dos estudiosos de cinema.
Sempre é bom informar para os leitores. Para quem não sabe, o Nosferatu (1922) é uma adaptação não autorizada do “Drácula”, de Bram Stoker. A viúva do autor (Florence Stoker) não concebeu autorização para o longa, então tiveram que fazer várias alterações do romance. Apesar de todos os problemas, a produção se tornou referência para o terror e o cinema mundial.

Desde o início de sua carreira, o cineasta Robert Eggers sempre demonstrou sua paixão pelo filme de 1922 e seu desejo por dirigir sua versão. No meio de tantas releituras descartáveis, o remake de Eggers traz um olhar diferente e trabalha suas temáticas de uma maneira assustadora. Nosferatu consegue a mesma premissa dos anteriores. Vamos acompanhar Thomas Hutter, agente imobiliário (Nicholas Hoult) que, a pedido de seu chefe, viaja ao encontro de um novo cliente, o conde Orlok. O conde, na verdade, é um vampiro milenar que espalha o terror na região de Bremen, na Alemanha, e se apaixona por Ellen, a noiva de Hutter.
Eggers traz o Folk Horror dos seus trabalhos anteriores (A Bruxa e O Farol) para Nosferatu, contudo o cineasta aplica a estética gótica para contar sua história, que é sempre bem-vinda porque o gênero está fazendo falta. Enfim, o remake vai explorar o misticismo de diferentes religiões para construção de seus cenários e a mitologia ao redor do vampiro. Dito isso, temos uma das melhores direções de arte de 2024, pois Nosferatu traz esse mundo melancólico, onde a noite se torna um azulado bastante sombrio que causa um arrepio e a composição de Robin Carolan (O Homem do Norte) ajuda em compor essa atmosfera arrepiante.

É uma construção de um mundo apaixonante, e Nosferatu não tem medo em ser exagerado e fantasioso, porque essa liberdade criatividade oferece cenas inventivas com o uso de sombras, para representar o monstro como um mensageiro da morte que está a prestes a causar a ruína da humanidade. Existe uma grande influência do cinema de Jean Cocteau na produção, e Eggers não esconde isso. Quando ele filma o primeiro encontro entre Thomas Hutter e o Conde Orlok, a câmera faz um distanciamento dos personagens, onde Hutter chega no castelo e vê de longe o Orlok escondido na escuridão. Isso remete a cena de A Bela e a Fera (1946), no qual o pai de Belle encontra a Fera no seu castelo, e nisso temos a utilização do mesmo posicionamento de câmera que Eggers homenageia.
Ellen Hutter é nossa heroína escolhida pelo acaso, pois é ela que possui uma conexão profunda com o vampiro e carrega um destino trágico. Lily-Rose Depp (O Rei) é a estrela de Nosferatu e estrega uma performance surpreendente nessa jovem mulher, cuja é apavorada por visões terríveis. É a personagem que sustenta a maior temática do longa que é a negação do prazer sexual.
A personagem é condenada pela sociedade conservadora da época por seu desejo sexual prematuro. Eggers vai explorar o tema na relação entre Ellen e Orlok, já que a jovem suplicou por um companheiro para suprir as necessidades. Nosferatu não é só retratado como uma praga (ainda vamos chegar nesse ponto), ele também simboliza uma espécie de anjo do deleite que escutou as orações da protagonista. Entretanto, quem respondeu suas preces foi um monstro diabólico, que se esconde nas sombras e a possui violentamente.
Nosferatu é a personificação do pecado de Ellen, então é o destino dela destruir esse mal antes que essa praga destrua a Alemanha. Bill Skarsgård (It: A Coisa) é assustador na sua interpretação como o vampiro morto-vivo, mas o que chama mais atenção na sua persona é seu visual totalmente diferente – bota diferente nisso – de versões anteriores do Nosferatu. Portanto, essa nova roupagem é uma antítese do Drácula.

Em toda obra vampiresca a presença do conteúdo erótico nas histórias e aqui a abordagem é interessante. Como dito antes, o visual do Conde Orlok é uma antítese do Drácula, já que o personagem é um sedutor e romântico (e às vezes poeta), enquanto o Nosferatu é grotesco e nada atraente. Essa criatura é um abusador e não existe nada sensual do jeito que ele ataca suas vítimas. Eggers realmente conseguiu entregar um vampiro fedorento.
Existe um jogo de câmera interessante que o autor faz para mostrar a dualidade entre os personagens. Quando a direção foca nos diálogos entre Orlok e Ellen, cria uma ilusão de um embate de uma santa e um demônio, e isso não para por aí. Quando Ellen confronta Friedrich Harding (Aaaron Taylor-Johnson) sobre suas atividades, é como fosse o conservadorismo castigando uma mulher por não seguir as normais básicas de uma dama respeitada.
Veredito
Nosferatu é uma excelente reimaginação do clássico. Robert Eggers demonstra sua paixão com a estética visual deslumbrante e extraindo o melhor da fantasia gótica.
8/10
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