Aviso: Crítica sem spoilers!


Menos heróis e mais investigação; uma adaptação interessante sobre Hal Jordan


Desde 2011, os fãs de Lanterna Verde estavam órfãos de um projeto referente ao personagem. Um filme que foi um estrondoso fracasso deu abertura para mais três produções: uma série animada e duas animações, já que Lanterna Verde: Primeiro Voo foi lançado em 2009. O último filme animado do herói foi Beware My Power, de 2022, que deixou a desejar em sua história. Anos depois, estreou a série Lanternas, tentando recuperar o nome arranhado da mitologia dos policiais galácticos deixado por Ryan Reynolds. A tarefa não seria nada fácil, e de certa forma, conseguiu reparar os danos graves causados pelo limitado ator e por um péssimo diretor.

Lanternas chega para causar uma ruptura entre a mitologia dos quadrinhos e os heróis no DCU. Apesar de discordâncias de fãs e argumentos nem sempre bem fundamentados, uma coisa é certa: a série é uma adaptação mais fora das HQs do que de uma história própria. Embora haja algumas semelhanças, mesmo que poucas, com a história Lanterna Verde: Terra Um, o seriado não tem, no sentido mais direto, “nada a ver” com a HQ – o traje, pelo menos, é tão desgastado quanto na HQ. De certa forma, a série une mais a criatividade de vários roteiristas do que elementos de histórias conhecidas de Hal Jordan ou John Stewart.

Na trama, Hal (Kyle Chandler) é um Lanterna Verde experiente e atende um chamado de uma possível presença de um Caçador Cósmico na cidade de Rushville, no interior dos Estados Unidos. Com ele, seu aprendiz, John Stewart (Aaron Pierre), se junta para uma investigação de assassinato em um campo de futebol americano de um colégio. Essa investigação leva a pessoas, conexões e até mesmo alienígenas de um outro planeta, que buscam vingança. No meio disso tudo, Hal Jordan precisa lidar com a pressão local, a polícia e o seu pupilo.

Inspirada em True Detective, a série mantém o segredo, até o final da temporada. A morte de Hal Jordan, o centro da trama, foi logo no primeiro episódio – muito cedo, por sinal, apresentar um grande herói e descartá-lo. Esse recurso narrativo molda toda a temporada, entre desconfiança, mistério e medo. O seriado trabalha bem suas linhas temporais, desde os anos 70 até 2026, mas nem sempre consegue dar maior profundidade a personagens que mereciam mais destaque, como é o caso do vilão Sinestro e até mesmo dos Guardiões de OA.

A história funciona. Tudo o que quis mostrar, mostrou. O problema é: descarte. A ideia do showrunner Damon Lindelof e do roteirista Tom King foi logo de matar o maior Lanterna Verde da história, sem muitos rodeios e deixando os fãs irritados. É uma decisão que foi amplamente criticada, mas que funciona como drama que molda toda a história. Ainda assim, a escolha é precipitada, e a promessa de manter bem o legado de Hal parece ter ido para o lixo. Não que tenha sido ruim ter aposentado o Jordan de forma definitiva, mas para um começo de universo, é uma escolha péssima, assim como foi a forma que ele foi assassinado. Pelo menos, dá para ter uma noção que o poder do amor da Mulher-Maravilha da Patty Jenkins aqui nem entra para consideração.

Apesar dos problemas envolvendo a mitologia dos Lanternas Verdes, de modo geral, a série compensa no elenco. Chandler nasceu para o papel, e soube trabalhar as duas formas do Hal Jordan, um Hal experiente e de saco cheio e outro cheio de força de vontade, mas ainda irritante. Com bastante folga, é a melhor versão do Hal em live-action. Já Pierre como Stewart sabe trabalhar bem no papel e faz o que lhe é proposto a partir do roteiro. São dois ótimos atores que chegaram em momento certo, mesmo que tenha sobrado apenas um para ser trabalhado (e a ideia é que seja muito melhor) em futuros projetos da DC. O elenco de apoio também é bom, com Ulrich Thomsen como Sinestro e Kelly Macdonald como a xerife Kerry Kane. O astro Nathan Fillion também faz uma participação breve como Guy Gardner, e encarnou muito bem a babaquice do personagem.

Para uma série da HBO, o orçamento é grande. Porém, ao que parece, Lanternas não teve um orçamento grandioso como os fãs gostariam. Os poucos construtos, poucas cenas de voo, o visual de costas do Guardião, tudo isso acaba não sendo bem destacado, o que torna um projeto mais pé no chão possível sobre o Lanterna Verde. Quando mostrado, é claro, o CGI não decepciona, mas para uma série dos Lanternas Verdes, é preciso que tenha mais luz, mais cores, mais CGI; mais tudo, praticamente. Isso pouco acontece. A pouca ação fica para um ou dois episódios, de uma série que conta com oito no total. Era preciso ter mais ação em diferentes episódios (não em todos), assim equilibrando entre a dinâmica irônica da dupla e sequências de luta e voo. Outro ponto que interessa muito é a paleta de cores. A fotografia terrosa, que trata mais de um teor investigativo do que heroico, é um acerto em cheio da equipe de produção. É algo mais autoral, diferente de todas as outras produções da DC Studios até o momento.

Não agradando muito os fãs, Lanternas encerrou sua primeira temporada com muitos pontos altos e poucos baixos. Sabendo dosar bem o suspense com a ação e drama, o seriado conseguiu captar a essência do trabalho terreno de um Lanterna Verde, mas deixou escorregar pelos dedos a real essência de um herói intergaláctico. Entre problemas com os Guardiões, inveja de John Stewart e o povo contra o herói, Hal Jordan foi o mais afetado do projeto, e mesmo assim, o que conseguiu conquistar o brilho dos verdadeiros fãs dos Lanternas Verdes. Faltou uma verdadeira ameaça na última parte da temporada, que elevasse ainda mais o seriado para outro patamar.


Veredito

Lanternas termina sua primeira temporada sendo uma boa série de investigação, trazendo um suspense de alto nível para uma produção de heróis. No entanto, apesar do excelente elenco, do ótimo visual e de um Kyle Chandler inspirado como Hal Jordan, a trama peca em colocar uma ameaça “menor” para confrontar o Lanterna Verde. O grande trunfo de Lanternas está no drama, na trilha sonora e na dinâmica entre os protagonistas, que melhora a cada episódio de uma produção mais adulta e menos focada no heroísmo.

7/10


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