Aviso: Crítica sem spoilers!


Filme tem a direção de Lúcia Murat


Exibido na Mostra Generation 14plus da Berlinale 2025, onde recebeu Menção Especial do Júri Jovem, Hora do Recreio, dirigido por Lúcia Murat, mergulha no cotidiano de estudantes da rede pública e transforma a escola em um espaço de escuta. Misturando observação documental com momentos encenados pelos próprios adolescentes, o filme abre espaço para que eles falem sobre violência, desigualdade, racismo, afetos e expectativas de futuro, revelando como a sala de aula é atravessada pelas tensões do lado de fora do portão.

Assisti ao documentário e saí mexida. Não é um filme que grita, ele sussurra. Talvez por isso doa mais. Ele fala da escola, mas não só da escola. Fala de infância, de estrutura, de abandono silencioso e da tentativa quase heroica de educadores que estão sempre tentando tapar um buraco que parece não ter fundo.

O que mais me marcou é que o filme não tenta explicar os adolescentes. Ele os escuta. Existe ali uma escuta ativa, verdadeira, quase paciente. A câmera não invade, não apressa, não traduz o que eles dizem para um “idioma adulto”. Ela confia na potência da própria fala deles. E isso muda tudo.

O recreio, que deveria ser o espaço da leveza, vira quase um retrato social. Ali estão as diferenças, as exclusões, as disputas, os afetos. É como se naquele intervalo pequeno a gente enxergasse o Brasil inteiro condensado. E isso me atravessou.

Perceber que aquelas vozes são tratadas com seriedade, sem ironia e sem paternalismo, foi algo que me tocou profundamente. As crianças e adolescentes já carregam pesos que não deveriam ser delas, e o documentário não tenta suavizar isso. A escola aparece como um lugar de cuidado, mas também de limite. Não é romantizada, e isso eu achei honesto. Existe cansaço, existe precariedade, existe falta de apoio. Mas também existe esforço, existe gente tentando fazer dar certo apesar de tudo.

Fiquei pensando no quanto a gente exige da educação como se ela fosse capaz de consertar desigualdades que começam muito antes do portão da escola. O documentário não oferece soluções fáceis, e talvez isso seja o mais bonito nele. Ele observa. Ele escuta. E ao escutar de verdade, denuncia sem precisar gritar.

Saí com uma sensação agridoce. Um misto de tristeza e admiração. Tristeza por perceber o quanto ainda falhamos com nossas crianças. Admiração por quem, apesar de tudo, continua ali, ensinando, mediando conflitos, acreditando.


Veredito

A Hora do Recreio não é sobre intervalo. É sobre aquilo que acontece quando alguém finalmente decide ouvir.

10/10


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