Aviso: Crítica sem spoilers!


Indicado ao Oscar traz mensagem forte sobre a imigração e luta pela sobrevivência


Eu, Capitão, filme lançado em 2023 e indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional, é uma produção italiana de alta qualidade, destacando a forte mensagem sobre a imigração de africanos e a luta pela sobrevivência e dias melhores. Mas, há muitas camadas do que uma simples crítica social ao capitalismo exagerado e ao preconceito escancarado.

O filme conta a história de dois irmãos, Seydou e Moussa, que anseiam por um futuro melhor. Os dois deixam Dakar, no Senegal, e partem rumo à Europa em uma épica aventura, onde enfrentam uma série de desafios do deserto, do mar e da própria essência humana.

Eu, Capitão - Filme - 2023 | Vertentes do Cinema

Começar a falar deste filme não é uma tarefa simples como deveria ser. É um soco no estômago e um tapa na cara para a dura realidade de muitos humanos na atualidade. Especialmente, para àqueles que querem uma vida melhor, deixando sua nação para trás e avistando horizontes de oportunidades. Para poucos, usar o celular, ver televisão, jogar videogame, e estar viralizando nas redes sociais é algo comum. Mas, isso é para uma parcela que consegue fazê-lo com o conforto de sua casa ou trabalho. Outros, não conseguem nem comprar comida para o dia, quem dirá ter um celular e ficar “brincando” nas redes sociais.

Enquanto muitos projetos perdem a oportunidade de fazer uma crítica social, mesmo que possam ser propostos para isso, Eu, Capitão, não perde uma única chance. Não precisa nem destacar em tela o que realmente é uma crítica ao capitalismo, as ricas nações cegas e uma alfinetada nos poderosos. A obra deixa perguntas como “o que fazer para o mundo melhorar? ou “eles merecem um lugar no mundo”. Tais questionamentos estão para o espectador responder para si, e encarar que a vida não é um mar de rosas. Talvez até seja para alguns, mas não para muitos.

Forte, ensurdecedor, triste e revoltante. Do primeiro ao terceiro ato, essas palavras definem o longa-metragem. Medir a dor é impossível. O público acompanha esses dois jovens, além de um grupo de imigrantes que querem chegar à Itália. Cada um passa por uma provação, seja ela de persistência ou de liderar. É claro que esse é um acerto em cheio, e não destacar tanto os personagens secundários é outra decisão acertada. Mesmo que cada um tenha, ao menos, uma fala, o espectador não é mergulhado em uma subtrama sem nexo e cansativa – afinal, quase não há uma segunda história no filme.

Io Capitano: Trailer 1

Diversos outros projetos de Matteo Garrone não deram tão certo quanto esse, e é necessário abrir um espaço para tecer elogios. Sem sombra de dúvidas, foi um dos destaques e uma das surpresas da última temporada de premiações. É uma direção competente, sem correr riscos, com a mão firme de quem sabe o que está fazendo. O cineasta não é raso, destaca seu detalhismo em uma paisagem ampla, quente e árida. Ele mostra a pobreza. O que muitos na África passam. Garrone rompe com os laços arcaicos e dá voz a personagens que precisam ser ouvidos: os imigrantes.

O trabalho do diretor é excelente, o que respinga nos atores principais, interpretados por Seydou Sarr e Moustapha Fall. Nada é tão emocionante quanto ver o personagem de Sarr sendo o destaque. Protagonista e coadjuvante são unha e carne em um projeto com coração. Ambos tem o desenvolvimento de grandes personagens como em Hollywood. São atuações fortes e que, merecidamente, tiveram os holofotes para si.

A atmosfera árida, a fotografia de cores quentes e a ideia da obra torna tudo em Eu, Capitão excelente. É um filme completo, que faz jus ao nome – querendo ou não, à indicação, ao trabalho de produção cauteloso e a trama impactante.

Filme assistido antecipadamente através de cabine de imprensa do Festival de Cinema Italiano


Veredito

Eu, Capitão, é um dos melhores filmes italianos já produzidos, e com certeza, é a melhor produção do país da bota em 2023. Matteo Garrone coloca todo o empenho e emoção em um projeto impactante e social, que critica o que precisa criticar em uma história dramática e contemporânea.

10/10


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