Aviso: Crítica sem spoilers!


O épico que o cinema precisava


Existem diferenças gritantes entre as obras de ficção-científica de Denis Villeneuve (Duna – Parte Dois), pois cada produção lida de uma maneira diferente o gênero sci-fi, e também, elas trazem emoções bem mistas para os espectadores durante a experiência.

Há anos a obra de Frank Herbert era considerada “impossível” de adaptar nas telonas. O cineasta Alejandro Jodorowsky (A Montanha Sagrada) tentou produzir sua própria adaptação, portanto surgiu inúmeros problemas nos bastidores que fez a produção ser cancelada (infelizmente), e logo depois veio David Lynch (Cidade dos Sonhos) para comandar sua visão do livro e sua versão foi lançada; entretanto o resultado foi regular no lançamento, apesar que este que vos escreve admira bastante o Duna de Lynch.

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Duna: Parte Dois consegue superar seu antecessor (não é uma tarefa difícil) e concebe finalmente a coragem para abraçar seu lado épico. A segunda parte não se baseia só no trabalho técnico, mas também em desenvolver seus temas, pois temos uma escrita madura que tem confiança em tornar a narrativa favorável e direta.

Na obra de Herbert, acompanhamos a jornada divina de Paul Atreides tentando aceitar seu destino como o salvador dos Fremen e, com isso, entra o embate dos próprios fremen se Paul é realmente o Messias ou só mais um estrangeiro. É uma discussão de Fé e ceticismo extremamente poderosa, e o longa sabe muito bem o poder desse debate e utiliza o Stilgar (Javier Bardem) que é um homem bastante devoto à sua crença e sonha que um dia seu povo será liberado e que deixará de ser aniquilado pelos Harkonnen.

E no outro lado da moeda tem a Chani (Zendaya), uma Fremen pessimista sobre essas profecias, pois no seu ponto de vista não haverá – ou não existe – um profeta que irá chegar e salvar a todos em um estalar de dedos. Fica evidente para Chani, que a esperança que seu povo tanto emerge é boba. Não é à toa que durante a narrativa a “esperança” é tratada como uma arma espiritual muito forte.

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É surpreendente ver o Timothée Chalamet (Wonka) tendo essa performance madura como Paul Atreides e conseguindo desempenhar a trajetória religiosa de seu protagonista, é um trabalho admirável.

O que seria uma Ópera Espacial sem um teor político? É uma das principais raízes do gênero. Duna é conhecido por ter essa veia geopolítica, e em Duna: Parte Dois esse aspecto sobre o poder corromper a mente humana é presente porque Arrakis vira a fonte de ouro para as grandes casas e principalmente para o Imperador Shaddam Corrino (Christopher Walken), já que o planeta produz especiaria e quem adquiri esse material pode comandar o universo.

É uma guerra sustentada pela ganância da elite que precisa a todo custo roubar recursos de outro planeta para continuar no poder. E é isso que torna a ficção-científica um gênero que atravessa a fantasia até o realismo, pois ela dialoga com o mundo atual em que vivemos, onde a mão do capitalismo é pesada.

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É difícil buscar um adjetivo que possa elogiar a cinematografia de Greig Fraser (The Batman), porém é sublime como ele conseguiu deixar Arrakis (um planeta desértico) cheio de vida. Fraser usa o tom alaranjado para ressaltar o calor infernal do planeta, e logo após temos uma tomada destacado as cores naturais do deserto no qual podemos ver sua beleza.

Enquanto isso o planeta Giedi Prime desfruta das paletas de cores preto e branco para realçar a selvageria da Casa Harkonnen e simbolizar que a violência é um elemento que reina nessa terra, e nisso entra em cena Austin Butler (Elvis) que interpreta uma versão reimaginada de Feyd-Rautha. Não é ironia dizer que o astro tem a melhor interpretação do elenco. É um controle tão seguro do papel que faz o telespectador ficar hipnotizado pela psicopatia de Feyd e chega ser até encantador em alguns momentos.


Veredito

Duna: Parte Dois é uma sequência vigorosa que joga o medo para escanteio, pois o medo corrompe a mente e a torna fraca. É o épico que fazia falta no cinema norte-americano e relembra que o sci-fi não está no limbo.

9/10


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