Aviso: Crítica sem spoilers!


Longa-metragem é um dos piores do ano


A onda de adaptações cinematográficas voltadas para o público infanto-juvenil e para o universo do dark romance encontrou um terreno fértil nos últimos anos. Seguindo essa tendência, Coração Partido (Your Heart Will Be Broken), dirigido por Mark Vanyberg e baseado no best-seller da autora russa Anna Jane, chega às telas tentando reunir os clichês mais populares do gênero: a garota novata, o bad boy enigmático, o namoro de fachada e dramas familiares densos. Contudo, traduzir o ritmo das páginas para a linguagem audiovisual exige mais do que empilhar tropos conhecidos, e é justamente na construção narrativa que a produção começa a derrapar.

O primeiro grande tropeço do longa reside na apresentação de seu conflito inicial. Acompanhamos a chegada de Polina a um novo colégio e sua repentina transformação em alvo de hostilidades. Inclusive, precisei ler o início do livro para compreender o contexto, pois o filme não deixou claro, em momento algum, o ponto de partida para que a menina começasse a sofrer bullying, que me obriga a comparar com o clássico Zoando na Escola, em que a motivação e as dinâmicas escolares são estabelecidas com clareza, aqui a transição ocorre abruptamente de um take para o outro, sem qualquer explicação plausível sobre o porquê da perseguição.

Essa pressa em saltar etapas prejudica diretamente a construção das relações entre os personagens. Em menos de dez minutos de filme, a dupla de protagonistas encena o que se poderia considerar flertes intensos, intercalados por um pequeno desentendimento ao se esbarrarem pela primeira vez, quando nenhum dos dois teve tempo de se desenvolver ou de apresentar o elenco de apoio direito. Essa aceleração artificial anula o amadurecimento da tensão romântica, fazendo com que a aproximação entre Polina e o rebelde Bars pareça forçada antes mesmo de a história ganhar corpo.

A falta de química entre os atores centrais acentua os problemas do roteiro. Embora seja positivo ver atores visivelmente jovens interpretando adolescentes, algo raro em produções desse tipo, a atuação engessada e os diálogos travados impedem que o público se conecte com o casal. Momentos que deveriam carregar carga dramática ou sensual resvalam no artificialismo.

Outro ponto crítico é a pulverização da trama em múltiplos subenredos mal resolvidos. Além do romance e do conturbado namoro falso, o filme tenta abordar corridas clandestinas, os traumas familiares de Bars e temas delicados. No entanto, em vez de aprofundar esses tópicos, o roteiro trata tudo de forma superficial, descartando personagens secundários sem explicações e criando uma sobrecarga dramática que enfraquece o impacto da história.

Para além do acúmulo de tramas, o longa demonstra uma incômoda falta de confiança na capacidade de interpretação do público. Sempre que um mistério ou tensão parece se desenhar, a narrativa apressa-se em entregar explicações mastigadas, eliminando qualquer espaço para a dúvida ou para a sutileza poética. No aspecto técnico, o filme só não se perde por completo devido à fotografia competente, que utiliza enquadramentos bem executados para resgatar a atenção do espectador nos momentos em que o ritmo desacelera, acompanhada por uma trilha sonora pontualmente funcional.

No fim das contas, abraçar clichês nunca foi um problema por si só, desde que a execução encontre tom e personalidade próprios. Em Coração Partido, o tom oscila de maneira desconcertante entre o melodrama exagerado e escolhas aleatórias, como uma desconexa cena de dança em praça pública ao som de K-pop, aproximando a produção de uma colagem de tendências de redes sociais em vez de uma obra cinematográfica consistente.

Filme assistido antecipadamente a convite da Paris Filmes e Espaço Z


Veredito

Coração Partido é uma adaptação fragilizada que falha em transformar o apelo de seu material de origem em um filme convincente. Prejudicado por um ritmo atropelado na apresentação dos conflitos e dos personagens, pela ausência de química entre os protagonistas e por um roteiro redundante que prefere expor tudo a construir emoções reais, o longa sobrevive apenas por relances visuais bem dirigidos. Trata-se de uma produção que dificilmente agradará ao público geral, servindo no máximo como entretenimento casual para quem já conhece a obra literária e está disposto a preencher as lacunas deixadas pela tela.

3/10


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