Aviso: Crítica sem spoilers!


“Liberdade é para os destemidos”


Uma das frases que está sendo usada na divulgação de Clube dos Vândalos é “liberdade é para os destemidos”. E realmente a liberdade é algo que o indivíduo possui, mas não sabe utilizá-la. Baseada no livro “The Bikeriders” do fotógrafo Danny Lyon, que documentou a ascensão de um clube de motociclismo no Centro-Oeste dos EUA, durante a década de 1960. O chamado “The Chicago Outlaws Motorcycle Club”.

O cineasta diz que sua maior influência para conceber o Clube dos Vândalos foi o Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, que é uma inspiração nítida logo no começo onde o personagem de Mike Faist (Rivais) está fazendo um documentário sobre o Motoclube bastante feroz que dominou a década de 60 e 70 no centro-oeste, e está entrevistando Kathy Cross interpretada pela Jodie Comer (Killing Eve), que será a nossa contadora de história, ao conviver alguns anos com os motoqueiros.

Clube dos Vândalos' conta história real de clube de motoqueiros americano |  VEJA SÃO PAULO

É interessante como Jeff Nichols (Amor Bandido) filma Kathy entrando nesse mundo porque é uma jovem mulher entrando numa jaula cheia de lobos famintos por ser uma presa fácil. Entretanto, Kathy é puxada nessa jaula após conhecer Benny (Austin Butler) que se atraí rapidamente pela rebeldia do rapaz. É uma obra que mergulha num lado oculto dos EUA, no qual uma parte do país enfrentava a chegada da Guerra do Vietnã e a Luta pelos direitos civis. Os jovens não tinham uma imagem heroica para se espelhar nessa época e, mais importante, é uma juventude sem independência, pois as ruas e o governo retiraram.

Quando os vândalos estão pilotando suas motos o autor faz questão para o telespectador sentir o som do motor, vento balançando nos cabelos e a paisagem natural compõe as cenas para torná-las imagens elegantes, no momento em que são vistos pelo povo, é evidente a sensação que essas pessoas desejam essa autonomia que os Vândalos possuem.

Os motoqueiros sempre foram sinônimos de emancipação para o imaginário popular, já que eles estão pilotando sem rumo, quebrando as regras e vestindo roupas chamativas, enquanto isso as pessoas comuns seguem uma rotina entediante, sem nenhum ânimo e repetido um loop eterno. A cinematografia de “Clube de Vândalos” é um destaque surpreendente por utilizar as cores naturais do Meio-Oeste para trazer essa Rebeldia numa América sem vigor. A fotografia de Adam Stone usa ambientação dos bares para criar esse aspecto de sujeira para expor a bagunça dos Vândalos.

Johnny (Tom Hardy) é o líder dessa irmandade, porém ele mesmo não sente que tem sua própria liberdade por carregar tanta responsabilidade, e a produção mostra que o personagem sente uma admiração pelo Benny porque é um Vândalo com livre-arbítrio sem responsabilidades nas costas e vive sua vida com exuberância. O longa cria esse contraste de sombra e luz para retratar ambos. Johnny já está na escuridão por fazer o clube mergulhar em miséria, em contrapartida, Benny está na luz, seguindo seu caminho sem compromisso.

Clube dos Vândalos: Austin Butler e Tom Hardy estrelam trailer; veja

Stone já tinha trabalhado com Nichols nos longas anteriores e a parceria continua forte. Durante a experiência, vemos como o cineasta desenvolve seu filme, deixando a trama um pouco de lado para trabalhar seus personagens e vendo suas consequências ganhando forma, e isso não é ruim, dado que a estética sustenta essa jornada.

Austin Butler e Jodie Comer proporcionam uma química favorável com uma atuação selvagem e sexy, mas o maior destaque do elenco é o Tom Hardy (Venom) que convence uma dedicação em descrever um líder que está se consumido pelo ódio e não vê mais o clube como um lugar para reunir seus amigos. Aliás, é bem explícito que a relação do trio de protagonistas é construído como fosse um triângulo amoroso já que a Kathy e Johnny constantemente estão disputando pela companhia do Benny.

O clube é tratado como um personagem dentro da narrativa, dessa forma contemplamos o surgimento de uma ideia nobre de Johnny se transformando em algo cruel e imundo, é uma ascensão e queda clássica.


Veredito

Clube dos Vândalos é o retrato de uma América ganhando um caminho para seguir em frente, mas as consequências convertem em um ciclo de violência. Apesar de a obra ter algumas ideias ficando subdesenvolvidas, isso não compromete a experiência.

9/10


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