Aviso: Crítica sem spoilers!
Épico transporta epopeia de Homero para o cinema com magnificência
A Odisseia chega aos cinemas de forma triunfante. Após o excelente Oppenheimer, vencedor do Oscar em 2024, Christopher Nolan dirige uma obra difícil de adaptar: uma epopeia escrita pelo lendário poeta Homero muitos séculos antes de Cristo. A obra narra a clássica história de Odisseu, presente no poema épico do autor, que transformou-se ao longo dos séculos e contado em visões diferentes, mas sem perder o prestígio da originalidade grega. Por ser uma leitura difícil, mas vigorosa, a adaptação cinematográfica consegue passar o mesmo sentimento, com uma riqueza de informações em cena e um detalhismo intenso, que se tornam um dos grandes trunfos de uma obra além do tempo.
Para contextualizar A Odisseia, é preciso retornar alguns anos. Assim que o filme foi anunciado pelo cineasta e pela Universal Pictures, estúdio que distribui suas novas produções, os fãs ficaram energizados com o potencial que Nolan poderia trazer para uma obra de séculos. Os mais céticos, assim como historiadores, ficaram preocupados. A pergunta feita era: “Como ele vai adaptar uma obra tão densa e extensa?”. Outras perguntas surgiram, tanto para o diretor, que começou a gravar em locações reais na Grécia e na Itália, priorizando o uso de efeitos práticos e minimizando a computação gráfica, quanto para o elenco, questionado se estava preparado para o grandioso projeto. A resposta é: eles estavam.
Em A Odisseia, a história segue Odisseu, general de Agamemnon (Benny Safdie) e rei de Ítaca, local onde casou-se com Penélope (Anne Hathaway) e teve um filho com ela, Telêmaco (Tom Holland). Após 10 anos na Guerra de Troia e vitória sobre os troianos, Odisseu volta para casa em busca de paz. Porém, ao pegar um caminho diferente, ele desembarca na ilha do ciclope Polifemo, filho de Poseidon, o deus dos mares da mitologia grega. Ao ferir Polifemo, Odisseu e sua tripulação embarcam em uma jornada por sobrevivência, entre encontros e desencontros com mitos e monstros, e um deus dos mares furioso sacudindo o mar na Grécia.

Diferente de tudo o que Nolan já fez em sua carreira, A Odisseia se configura como um épico histórico. Não é de guerra, não é ficção científica, biografia ou de heróis. A adaptação mais difícil da trajetória do cineasta é com Odisseu (Matt Damon) e companhia. Controverso o suficiente como Oppenheimer, o diretor volta aos palcos públicos para ser massacrado por haters e nem sempre agraciado por fãs de cinema. Novamente, em uma oportunidade a qual muitos poderiam ficar calados, Nolan trabalha como nunca e faz com que milhões fiquem boquiabertos por duvidarem de sua capacidade. Assim foi com Batman Begins, Dunkirk e Oppenheimer. Cada projeto citado é brilhante e importante, e com dúvidas de “críticos de sofá” perante à qualidade da obra e adaptação fiel, o diretor retorna ao cenário ideal que sempre esteve: os holofotes.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor, usa como elemento principal a narrativa não linear, ou seja, sem seguir os acontecimentos em ordem cronológica. A partir deste ponto, a trama se desenrola unificando uma ponta a outra: Telêmaco em Ítaca procurando respostas pelo pai, Odisseu em Ogígia, a ilha da ninfa Calipso (Charlize Theron), que o mantém preso por sete anos após o fim da Guerra de Troia. Essa conexão longínqua é ainda mais forte entre o protagonista e a coadjuvante Penélope (Anne Hathaway). A esposa de Odisseu desempenha um papel importante e central na trama, já que é por causa dela que centenas de pretendentes estão em seu palácio para um casamento arranjado. Isso é um motor para que o interesse dramático do público fique aguçado, enquanto Odisseu busca meios de voltar para casa e sua família.
A jornada do herói é um dos elementos que são usados para construir e moldar a persona Odisseu. O protagonista enfrenta uma série de obstáculos para retornar à Ítaca, igualmente ao livro de Homero. No entanto, Nolan usa de liberdade poética para mudar alguns aspectos ou visuais, reimaginando um Ciclope muito maior e mais mitológico, “humanizando” os lestrigões e destacando os monstros como seres sobrenaturais, como é o caso de Cila. Ao apresentar a jornada do herói, o roteiro também põe à prova os conflitos do homem contra a natureza, o homem contra os seres míticos, o homem contra outros homens e o homem contra si mesmo, entre dúvida, orgulho e soberba.

Tensão é a palavra final do longa-metragem, que usa muito disso para desenvolver a longa viagem de Odisseu, seus desafios e medos. Apesar de ser uma obra sem conexão com a história verídica, o diretor conseguiu lidar com o medo diante dos olhos do protagonista e sua tripulação. Isso simboliza a capacidade do personagem em tentar ser mais do que era, muito mais que um rei. A aproximação de um rei para com seu povo, é, de certa forma, um trunfo da película. A ideia é de que o governante seja intocável, mas isso cai por terra em A Odisseia. Enquanto Agamemnon era intocável e Menelau (John Bernthal) teve um papel de um rei muito além do que seria de sua capacidade, Odisseu foi um simples governante, mais próximo do povo e amigo de todos. É um toque de Midas do cineasta em reconhecer a humildade em um rei que poderia não ser humilde.
Entre tantos momentos positivos, um tão excelente quanto o roteiro é o elenco. Anne Hathaway tem uma ótima atuação como Penélope e se destaca ainda mais que Damon como Odisseu, embora o astro não fique tão atrás. Uma das grandes surpresas de um cast tão vasto e importante foi Tom Holland como Telêmaco. Uma atuação mais enérgica, impulsiva, que cria um contraponto em relação a Odisseu. O protagonista é experiente, mas apresenta um desgaste após passar por experiências que levam ao trauma. Seu filho contraria isso, sendo o futuro de Ítaca. Assim como Holland representa a juventude, Zendaya, que vive a deusa Atena, fornece densidade emocional em poucas cenas que, se não estivessem no longa, poderiam não fazer falta. Pelo pouquíssimo tempo de tela, é impossível definir se foi ou não um bom desempenho. Já Robert Pattinson, como Antínoo, destaca a ambiguidade psicológica e uma figura instável, em uma representação marcante do vilão.
O elenco ainda conta com boas atuações do elenco de apoio, como John Leguizamo no papel de Eumeu, Charlize Theron como a ninfa Calipso e Samantha Morton como a bruxa Circe, uma atuação marcante e odiosa. Mia Goth e Lupita Nyong’o, que aparecem em poucas cenas, não desempenham bem sua qualidade de atuação, em uma definição de desperdício de talentos.
Nolan dirige o filme com segurança e conduz o elenco com precisão. O cineasta constrói uma história atual sem perder a fidelidade ao clássico literário, embora recorra, é claro, à liberdade poética para encontrar soluções inteligentes e envolver o espectador em um espetáculo visual e sonoro. O grande destaque de A Odisseia é a fotografia de Hoyte van Hoytema, magistral e voltada à imersão, com movimentos de câmera fluidos e motivados. Hoytema alterna entre uma paleta cromática e outra dessaturada, utilizando tons mais escuros ou mais vibrantes conforme a necessidade dramática. O resultado é uma fotografia clássica, naturalista e monumental.

A fotografia dialoga diretamente com os efeitos práticos e a abordagem épico-realista adotada pelo filme. Vale destacar que Nolan privilegia o uso mínimo de efeitos visuais e o máximo de efeitos práticos, buscando conferir cada vez mais realismo às suas produções. Para isso, aposta em locações reais e cenários instigantes, preservando a autenticidade histórica da narrativa. Assim como a montagem e o design de produção, que mantêm com facilidade a assinatura já consolidada do diretor, a trilha sonora composta por Ludwig Göransson se destaca por sua atmosfera imersiva. Um recurso recorrente nos trabalhos do compositor é o uso do soundscape, técnica em que a música se funde ao desenho de som, tornando difícil distinguir em que momento termina a trilha sonora e começam os sons da cena. Entre elementos eletrônicos discretos e uma percussão metálica que remete à Idade do Bronze, as composições figuram entre os maiores acertos do filme, embora este não seja o melhor trabalho de Göransson.
Por fim, A Odisseia sabe como trabalhar vários temas em um filme de quase três horas de duração. A narrativa é construída pela combinação da jornada do herói, da mitologia, dos conflitos, do suspense, do simbolismo e de personagens que representam valores humanos universais, tornando a história envolvente e atemporal; uma história que se aproxima da modernidade com temas relevantes.
Veredito
A Odisseia é um dos melhores filmes da carreira de Christopher Nolan e o melhor de 2026 até então. Ao trabalhar temas importantes, como a jornada do herói e os conflitos entre a humanidade, a dúvida sobre si mesmo e a capacidade de confiar no próximo, o diretor, que também assina o roteiro, faz do longa-metragem uma epopeia cinematográfica inesquecível. Com um elenco renomado, uma trilha sonora marcante e uma fotografia exuberante, mas minimalista, a obra evita dar explicações desnecessárias, concentrando seus esforços em uma narrativa visual grandiosa.
10/10
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