Aviso: Crítica sem spoilers!


Um espetáculo de vísceras que esquece a alma no sarcófago


O cinema de horror de Lee Cronin sempre demonstrou um flerte insistente com o grotesco tátil. Se em seus trabalhos anteriores ele já havia estabelecido uma predileção por destruir núcleos familiares através de imagens visceralmente incômodas, aqui em A Maldição da Múmia (The Mummy), ele tenta elevar essa escala para o patamar do épico. No entanto, o que deveria ser uma ressurreição triunfante de um dos monstros mais clássicos do cinema acaba se tornando um exercício de paciência, onde o impacto visual luta constantemente contra um roteiro anêmico e uma duração de mais de duas horas que se mostra injustificável.

A premissa nos situa no Egito, acompanhando o casal Charlie (Jack Reynor) e Larissa (Laia Costa). O drama ganha contornos trágicos quando a filha mais velha, Katie, desaparece sem deixar rastros. Oito anos se passam até que os destroços de um acidente aéreo revelam um sarcófago milenar e, dentro dele, a menina desaparecida. Mas essa Katie (Natalie Grace) não é mais a criança que eles conheciam; seu corpo está contorcido, sua pele necrosada e sua presença exala um mal antigo que parece infectar a realidade ao redor.

Cronin não economiza na crueza. O filme é um desfile de efeitos práticos repugnantes, com fluidos corporais, ossos estalando e um design de som que parece projetado para perfurar os ouvidos do espectador. O uso recorrente de split diopter e closes macroscópicos reforça uma sensação de claustrofobia e desconforto sensorial constante. É um horror “sujo”, que se afasta propositalmente da aventura leve das versões do final dos anos 90, mas que também evita a atmosfera estéril do reboot de 2017.

Contudo, a ambição do diretor em criar um horror de autor com escala de IMAX esbarra em uma narrativa inchada. Há subtramas, como a investigação de um detetive no Egito (May Calamawy), que parecem pertencer a um longa-metragem diferente e servem apenas para sabotar o ritmo da obra. O filme tenta se vender como um drama denso sobre luto e o trauma do retorno, mas não dedica tempo suficiente para que as conexões emocionais entre os pais e a filha possuída soem genuínas. Charlie e Larissa acabam reduzidos a testemunhas aterrorizadas, cujas reações tornam-se repetitivas à medida que o filme avança para um clímax ruidoso.

O grande triunfo da produção é, sem dúvida, a performance física de Natalie Grace. Mesmo enterrada sob camadas pesadas de maquiagem e próteses, ela consegue transmitir uma ameaça puramente corporal que remete aos grandes clássicos de possessão. É um trabalho impressionante de contorcionismo e presença cênica. É lamentável, porém, que o restante do elenco não receba um material de mesma qualidade, ficando presos a diálogos puramente expositivos e a uma direção que prioriza o choque visual em detrimento da tensão psicológica.


Veredito:

A Maldição da Múmia é visualmente impactante e audacioso em sua violência gráfica, herdando a energia implacável que Lee Cronin imprimiu em seu A Morte do Demônio: A Ascensão. Entretanto, o filme falha ao não entregar uma história que sustente sua grandiosidade técnica. É um longa de monstros que impressiona os olhos com seu banquete de sangue, mas deixa um vácuo narrativo que nem mesmo o esforço físico de sua protagonista consegue preencher.

5/10


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