Aviso: Crítica sem spoilers!


Filme evoca “contos de fada” para desconstruir romances clássicos e criar fábula feminista


Traçar um paralelo entre a vida social moderna e a das realezas de séculos passados costuma ser uma forma de escancarar costumes antiquados e deixar claro o quanto nós, enquanto sociedade, evoluímos para com alguns grupos. Trata-se, geralmente, de um contraste que na mesma medida em que choca pode, também, divertir – ao menos dentro de uma ideia de absurdo. E é justamente no meio dessas duas provocações (o chocante e o divertido) que entra 100 Noites de Desejo.

Segundo longa-metragem da diretora canadense Julia Jackman, o filme é baseado em uma graphic novel de mesmo nome (100 Nights of Hero) que se passa em um mundo que, apesar de fictício, também é bastante desfavorável para as mulheres. Cherry (Maika Monroe) é uma jovem recém casada que, pela lei da sociedade onde vive, precisa engravidar em alguns meses se não quiser ser morta. Acontece que o seu esposo Jerome (Amir El-Masry) não apenas não “consumou” o casamento como, também, posterga dia após dia qualquer tipo de contato físico com a sua companheira.

É então que ele faz uma aposta com Manfred (Nicholas Galitzine), um amigo recém despejado do local onde vivia por causa de “problemas” com a esposa. Se o velho conhecido conseguir em 100 noites seduzir Cherry, poderá ficar com o castelo. Do contrário, terá de arranjá-lo um herdeiro. A jovem, portanto, se vê no meio de um jogo onde precisa decidir se abre mão da própria vida ou do próprio desejo, e decide recorrer a ajuda da criada e melhor amiga Hero (Emma Corrin) para lidar com a situação.

100 Noites de Desejo evoca uma espécie de “conto de fadas”, com castelos, vestidos e romances proibidos, apenas para desconstruí-lo e criar uma espécie de fábula feminista – que, apesar de interessante, sofre por ser autoexplicativa demais. O longa se dedica a criar situações que mostram que mesmo um mundo completamente inventado, onde o conhecimento e o prazer são negados às mulheres, pode se parecer com o nosso. 

É um filme que atua para desmistificar a ideia romântica que os longas de época construíram em nosso imaginário para deixar claro que: sem direitos, palácios e vestidos não servem de nada. Trata-se de um longa que funciona bem enquanto uma sátira composta por homens que se dedicam a um ideal de masculinidade ridículo e mulheres invalidadas que despertam para a vida. 

Acontece que o que há de mais interessante no longa rapidamente se esvai. A crítica a essa sociedade que sufoca mulheres começa bem em um tom de humor a la Wes Anderson, regado por narrações em off e enquadramento plásticos e meticulosos, mas não se sustenta por muito tempo graças a personagens desinteressantes e à falta de tesão ou tensão em suas dinâmicas.


Veredito

100 Noites de Desejo encontra a sua melhor característica na proposta de, enquanto sátira, desconstruir o ideal de romances clássicos em épocas que mulheres eram na verdade silenciadas pela sociedade; e o seu pior em atuações medianas e personagens fracos que, pela exceção de Emma Corrin, não nos causam nenhum sentimento.

6/10


Descubra mais sobre Critical Room

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.