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Crítica: Never Rarely Sometimes Always (2020)

Aviso: Crítica sem spoilers!


“Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” – não é apenas o título do filme traduzido, como é também um guia de respostas para um questionário nada agradável. Uma sensação de labirintite constante. Um retrato cru e fiel de uma adolescente no século XXI, sua jornada, e suas escolhas.

Autumn tem dezessete anos, e trabalha como atendente de caixa numa mercearia. Após fazer alguns exames, descobre estar grávida de dez semanas, e viaja praticamente com a roupa do couro para Nova York com sua prima e companheira, Skylar, para realizar um aborto.

Desprovida de qualquer suavidade narrativa, a sensação de vazio existencial é levada por uma direção que incomoda, que capta a imagem sem artificialidades. São enquadramentos fechados, apertados (é raro ver planos abertos) que nos fazem sentir perdidos, ver que ninguém ali está se divertindo. Mas nunca perdendo a sensibilidade.

E curioso que: o dinheiro que elas usam para poder pagar a passagem foi roubado do seu chefe pervertido – enquanto todos os problemas do filme giram em torno dessa mesma questão. As dificuldades rotineiras vindas pelo simples fato de ser mulher. E a diretora Eliza Hitman não faz a menor questão de adoçar nada.

A fotografia com cores pastéis, quase mortas, assim como o céu constantemente nublado, parecem perseguir as personagens. O texto do filme é tão bem inserido que nem parece estar no roteiro. E se um rapaz não sabe os limites de uma “simples cantada” – mal sabe ele estar cometendo um assédio. E infelizmente, essa subtrama surge com certa veracidade. Pois não há mentiras ali.

E se esse tema é contornado de forma poderosa por um gesto inebutável e acolhedor pelas protagonistas, o mesmo pode se dizer do argumento central. Em nenhum momento há uma exposição narrativa insinuando que a mulher é a dona de de suas escolhas. Isso é refletido quando, na frente da clínica, há um protesto cristão contra o aborto, e necessitando passagem, elas passam por entre o grupo, em silêncio.

Mas se essa realidade abstinente parece abaladora, a diretora foca em apreciar as primas indo para uma padaria, contando o pouco dinheiro que têm para fazer alguns pedidos. E mesmo sem muitos diálogos, há uma emotividade encantadora ali. Ausência de diálogos que até mesmo está presente na hora que elas decidem fazer a viagem. Aliás, nós não precisamos concordar com as escolhas delas. Devemos respeitar.


Veredito

Com performances absurdas da Sidney Flanigan e Taile Rayder, e alguns momentos chocantes, Never Rarely Sometimes Always irá comover e impressionar, até que a ficha de que tudo aquilo é uma realidade, caia. Obra-prima.

10/10.