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Crítica: Pennyworth (2ª temporada)

Alerta: SPOILERS! Desça e leia por sua conta e risco.


Pennyworth tem grandes reviravoltas em seu segundo ano.


A série prequel do Batman na Epix, Pennyworth, é um dos grandes destaques da DC Comics na TV neste ano. Após uma primeira temporada deixando algumas questões em aberto, a segunda se inicia, tentando começar um arco totalmente novo: Uma vida nova para Alfred (Jack Bannon) e seus amigos. E isso, realmente, não parece dar tão certo.

Com a primeira temporada surpreendendo em sua trama positivamente, era muito esperado que a segunda também fosse assim, ou melhor. Talvez Bruno Heller e Danny Cannon tenham acertado a mão de vez em Pennyworth, e deixando o misticismo de James Bond de lado, para focar em uma personalidade única para o Alfred. Os eventos da primeira temporada respingaram muito bem para a segunda, com Os Corvos dominando quase toda a Inglaterra, e a Liga dos Sem Nome (a rainha e demais aliados) se sitiando apenas em Londres. A guerra civil ainda continuava, e muita gente inocente perdia a vida com bombardeios da sociedade de Lorde Harwood (Jason Flemyng).

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A primeira metade da temporada obteve muito foco em Alfred e sua equipe para ganhar dinheiro fácil, além de também, mostrar um novo possível inimigo para a Coroa Inglesa. O drama foi cada vez aumentando, assim como a espera do próximo episódio, para saber o que iria acontecer. No lado de Alfred, o futuro mordomo se envolveu com o crime após Gully (James Purefoy), seu antigo capitão no exército, ao lado de Dave Boy (Ryan Fletcher). Essa decisão de viver uma vida heroica e de crime ao mesmo tempo, o separa de sua mãe Mary (Dorothy Atkinson), e sua relação familiar parece mais distante, assim como a amorosa.

E é a relação amorosa de Alfred o grande problema desta temporada. A primeira temporada conseguiu encaixar Esme (Emma Corrin) muito bem na trama, assim como Beth (Paloma Faith), que conseguiu se entrelaçar no meio dos dois. Na nova temporada, nada se acerta, e quando parece, ele volta atrás. Alfred possui um relacionamento com Sandra (Harriet Slater), e, ao mesmo tempo, se apaixona pela mulher de Gully, Melanie (Jessica De Gouw). A tentativa de fazer com que Alfred seja um típico Bruce Wayne falha, e a esperança de que sua vida seja melhor nos EUA, com Melanie, Dave Boy e sua mãe, se cai por terra. Mas, mesmo que ele seja um belo par para Melanie, quem sabe possamos ver algo mais entre ambos na terceira temporada, quando ele for para Gotham.

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Apesar das relações conturbadas de Alfred, sua fama como um quebra-galhos ainda continua. Mesmo que ele tente ficar longe, ainda há trabalhos que ele é necessário, bancando o herói londrino dos anos 60. A guerra ainda continua, com a Liga dos Sem Nome e a Sociedade dos Corvos. Toda a guerra civil divide os personagens, que buscam por alguma interferência do exterior, caso a grande arma química da Sociedade dos Corvos seja liberada. Com isso, há uma tensão entre a relação de Thomas (Ben Aldridge) e Martha (Emma Paetz), que se desencontram, encontram e assumem seu relacionamento amoroso apenas na reta final. Considerando que a dinâmica entre os dois atores e personagens seja realmente boa, a dificultação de Martha para com Thomas, e vice-versa torna a subtrama, muitas vezes, entendiante. Claro, que agora, parecem ter se acertado, e veremos algo mais sólido na próxima temporada.

Deixando a trama um pouco de lado, o grande acerto da série é a própria ambientação, que apenas melhora com o passar do tempo. A Londres seiscentista já foi elogiada na primeira temporada, e na segunda, merece muitos elogios e atenção. Se o roteiro de Bruno Heller não é tão funcional em Gotham, é inegável dizer que a ambientação da cidade do Batman é errônea. Assim como Gotham, Heller e Cannon acertam no visual novamente, aderindo todo o aspecto de um alvorecer, na Londres dos anos 60. Seguindo os detalhes técnicos, vale ressaltar a trilha sonora, muito caracterizada como a do 007, mas com originalidade de Pennyworth.

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A segunda temporada tem um salto de melhora em sua qualidade, e cada ator está confortável em seu respectivo papel. Com Jack Bannon sendo o principal ator, o novo ano do programa da Epix mistura muito drama e ação, ganha ainda mais força em sua reta final de temporada, ainda que o final não seja tão agradável. Embora eu ache que o arco da guerra civil pudesse ter sido finalizado, uma nova temporada pode abrir diversas subtramas interessantes e ainda mais consistentes. Com certeza, Pennyworth é uma das melhores séries da DCTV, que ainda é um tanto desconhecida pelos fãs da DC.


Veredito

Pennyworth melhora em sua segunda temporada, mas retrocede em trabalhar com os relacionamento de Alfred. Com um começo de temporada mais ameno, o segundo ano ganhou mais ritmo durante a reta final, embora tenha dado um salto temporal, permitindo um final em aberto para uma terceira temporada. Com o arco de Alfred ainda não finalizado, e um início promissor para os Waynes, a terceira temporada abre margens para possibilidades infinitas, e um novo horizonte para Pennyworth.

8,5/10.


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Crítica: The Office (1ª temporada)

Alerta: SPOILERS! Desça e leia por sua conta e risco.


Um início brilhante para uma sitcom.


A primeira temporada de The Office é bastante curta, tendo apenas seis episódios, já que na época, ninguém sabia se a série iria fazer sucesso, por isso a pequena quantidade de episódios para a primeira temporada. Mas quando foi lançada, a serie se tornou um verdadeiro fenômeno, durando nove temporadas e sendo reconhecida como uma das – se não for a melhor – sitcom da história. Vale ressaltar que uma sitcom é uma série que mostra o cotidiano de um grupo de pessoas, com bastante bom humor, e humor é o que não falta nesse escritório gerenciado pelo incompetente Michael Scott (Steve Carell).

O Michael é um personagem tão genial, que ele comprou para si mesmo uma caneca, onde está escrito a frase “O melhor chefe do mundo”. E para piorar, o Michael consegue ser bastante inconveniente com suas piadas ofensivas sobre a etnia ou o peso de seus funcionários. Inclusive, no segundo episódio da série, os funcionários da Dunder Miflin recebem uma palestra sobre diversidade, mas na metade do episódio, o palestrante diz que aquilo tudo foi feito pelas piadas do Michael, deixando um clima bastante constrangedor no ar. Isso é um dos maiores acertos de The Office na primeira temporada, já que ela possui momentos extremamente constrangedores, e em quase todos eles Michael Scott está envolvido.

Outro personagem que rouba a cena é o puxa saco Dwight Schrute (Rain Wilson), que basicamente é o melhor vendedor da filial de Scranton e extremamente dedicado a sua fazenda de beterrabas. Mas existe outro vendedor nessa filial que adora pregar peças no Dwight, Jim Halpert (John Krasinski) passa mais da metade de seu tempo pregando peças no Dwight, a mais famosa claramente é colocar as coisas do colega na gelatina

E por incrível que pareça, The Office possui um dos melhores casais já feitos, Jim e Pam (Jenna Fischer) possuem uma química incrível. Mesmo que os dois não fiquem juntos na primeira temporada, as cenas onde ambos interagem são ótimas. As conversas entre Pam e Michael também são boas por conta dos diálogos constrangedores entre os dois.

The Office possui personagens carismáticos e únicos, e as atuações realmente fazem parecer que estamos vendo o dia a dia de uma empresa qualquer, já que a serie possui todo o tipo de pessoa, desde os mais gentis e bem-humorados até os mais grossos (foi o que ela disse) e chatos. Entretanto, em alguns momentos, a primeira temporada se torna entediante e um pouco chata. Fora isso, a primeira temporada de The Office é muito boa, e marca a estreia de uma série que conquistou o mundo.

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Veredito

A primeira temporada de The Office é marcada por vários momentos de extrema vergonha alheia, que é a marca registrada da série, porem em alguns momentos ela se torna maçante e um pouco chata, mas nada que abale a qualidade do produto final.

9/10.


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Crítica: Malcolm & Marie (2021)

Aviso: Crítica sem spoilers!


Não é difícil ser grato. Mas é comum não sermos agradecidos por pequenos gestos de quem convive conosco. Malcolm & Marie flui com base em como somos tão ingratos e nos importamos tanto com pequenas falhas dos outros. Aliás, nenhum “obrigado” é tão frequente quanto um “faça direito!” – essa é a essência humana.

A trama econômica evolui ao som de um jazz melódico que realça a estética sofisticada. Tendo como cereja do bolo o fato de inter-dialogar com o próprio cinema, retrata como há uma onipresente reflexão, mesmo que indireta, da vida real, independente da trama ou contexto histórico, cada filme pode ser um retrato de sua sociedade ou época, assim como há aqui o aberto discurso para maior representatividade na indústria.

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O visual requintado dialoga muitíssimo bem com uma química de sedução constante – isso quando não alterna entre momentos de histeria. Além da cinematografia de Marcell Rév, que ajuda a estabilizar a moderna ambientação. Diante disso, as performances são extremamente concisas e convincentes, circulando perfeitamente bem com a composição e tom criados, onde nenhum se sobrepõe do outro.

E é tudo uma questão de valorização: Malcolm (John David Washington) após retornar da sessão de estreia do seu novo filme junto de sua noiva, Marie (Zendaya) passa por uma discussão quase interminável, que recapitula erros passados, como se algo os impedisse de demonstrar consideração pelo presente.

Até que em determinado momento, o vai e vem pode soar repetitivo, já que não há muitos pontos na trama a se decorrer. Mas nada muito diferente do que nossa própria rotina: indecisões frequentes, despertar de coerências, gatilhos – é pura angústia, mas isso é porque somos carentes demais, nunca estaremos satisfeitos o bastante.

Isso se reflete bem na cena em que Malcolm, tomado pela ansiedade, se altera ao ler uma crítica recém lançada de seu filme. E ainda por cima, a crítica era positiva. Isso nos faz perder o velho ditado: “O que vem de baixo não me atinge” – quando qualquer oportunidade, como as oferecidas ao próprio Malcolm, são auto-insignificantes.

Isso desperta, involuntariamente, uma sensação culposa de ciúme por quem está ao seu redor. Talvez por isso, os dilemas apresentados à personagem da Zendaya possam ser mais delicados, ainda mais quando em certo ponto, fica subentendido o início melancólico de seu relacionamento, que é certamente o ápice emotivo do longa, que por sinal, acerta em cheio ao deixar diversas outras circunstâncias externas implícitas.

De modo geral, com movimentos de câmera e uma atmosfera luxuosa, mesmo sendo um pouco auto-indulgente, o talentoso diretor Sam Levinson, da série Euphoria, não conta apenas com o carisma de seu elenco para trazer uma obra mais do que satisfatória.


Veredito

Simples e eficaz, Malcolm & Marie trabalha seus temas de forma inteligente, carregado por atuações de alto nível.

9/10.

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Crítica: A Escavação (2021)

Atenção: Crítica sem Spoilers!

A nova aposta da Netflix funciona como uma versão clichê de Sangue Negro – mas não que seja necessariamente ruim. E lógico, a comparação radical demonstra bem a estratégia que a plataforma de streaming milionária vem preparando para 2021.

Se tematicamente lembra a obra-prima dirigida pelo Paul Thomas Anderson, esteticamente está a anos-luz de igualar-se. E até que inicialmente, alguns tracking shots utilizados pelo diretor Simon Stone arriscam garantir certa imersão, mas a instabilidade na narrativa e na composição estilística afetam na identidade do produto. Claro, nada muito diferente do que a Netflix vem apresentado para seu público médio. Aliás, até pode-se dizer que aqui há uma mínima tentativa de diferenciar-se de tal. E nessa perspectiva, o conjunto final pode sim ser encaixado como funcional.

Boa parte disso se deve por um elenco que parece estar confortável. Em especial, o Ralph Fiennes (Voldmort da saga Harry Potter) carrega uma experiência convincente e carisma ao ponto. Sua relação com a personagem da Carey Mulligan, mesmo soando incompleta, mantém seu núcleo por boa parte estável, já que sua problemática fica em segundo plano até o terceiro ato. E se há algum senso de preocupação, é rasteiro, e emocionalmente não é carregado como deveria pela performance do ator mirim Archie Barnes, que está longe de impressionar, tornando claro então, este não ser o principal objetivo a ser alcançado pelo longa.

O roteiro adaptado do romance baseado na história real escrito por John Preston situa-se nas vésperas da segunda guerra mundial, e acompanha uma mulher que após a morte de seu marido, contrata um arqueólogo para escavar as terras por trás da casa. Logo, com a introdução de novos personagens, que de nada vital acrescentam, o melodrama de poucas substâncias vive de sua ambientação, que gera sim tomadas interessantes. Mesmo sóbrio em seu caminho, constantemente tenta se auto celebrar, utilizando os conflitos internos da época como pano de fundo básico, muitas vezes narrado, além da ausência de algo estar em jogo que tira qualquer peso, mas não um ar de jornada a ser enfrentada. No contrário: é bastante simples, e foca fisicamente nos esforços do personagem do Fiennes, que não teve seu nome creditado no final da operação, dando então certa razão para a existência do filme.

E a escolha até seria válida, caso contivesse uma direção que trabalhase melhor pontos como ação – reação, manipulação do tempo e soubesse deixar balanceado todas as linhas que cria, como o pedestre romance envolvendo a personagem da Lily James, que apresenta uma boa caracterização não tão bem aproveitada, acompanhado por uma trilha sonora de pouca criatividade.

Mas se o drama morno não empolga, a montagem parece querer dar um valor a mais do que realmente vale. Mas nada de manipulação – na verdade, a estratégia é concisa e parece estar pisando em terra firme, até porque essa é a estrutura do filme: segmentos chamativos, estimulantes e organicamente alegóricos, com êxito na fotografia do Mike Eley, que traz vivacidade ao solo através de um céu constantemente fluorescente, com bom uso de silhuetas em belos takes ao anoitecer, que manifestam um clima agridoce e genuinamente confortável.

Próximo da finalização, toca brevemente em temas como ansiedade, o lidar com a morte – mas sem se aprofundar muito, prejudicando um pouco na firmação da nota final, que não sabe bem qual reação dar. Inegavelmente com alguns acertos, de modo geral a obra vai agradar seu público alvo, e ao menos, não deve incomodar aqueles mais exigentes.

Veredito

Tendo como base boas cenas isoladas e performances dedicadas, certamente há o que se gostar em A Escavação, uma aposta válida da Netflix. 

6,5/10.

Crítica: Onde os Fracos Não Têm Vez

Aviso: Crítica sem spoilers!



Não são todos os realizadores cinematográficos que compreendem a importância de respeitar a imaginação do espectador. A ausência de um personagem explicando o que está acontecendo toda hora gera não apenas um maior entrosamento entre o público com o que está sendo apresentado em tela, como estimula também nosso raciocínio.

É baseado nisso que a adaptação homônima de 2007 do romance Onde os Fracos Não Têm Vez, escrito por Cormac McCarthy, entra em destaque.

Roteirizado e dirigido pelos Irmãos Coen, que desde pequenos são apaixonados pela sétima arte, não vêem muita diferença entre brincar com suas câmeras e fazer seus filmes amadores quando crianças e dirigir um longa-metragem de alto orçamento e com um elenco de peso.

“Não irei apostar minhas fichas em algo que não sei onde vou me meter. Prefiro dizer: tudo bem, farei parte desse mundo.”

O convite: o filme inicia com a narração do xerife Ed Tom, que mesmo já tendo idade para se aposentar, persiste em permanecer no departamento de polícia do Texas. Suas palavras são ouvidas em imagens belíssimas do amanhecer, fotografadas por ninguém mais, ninguém menos que Roger Deakins. A cada take, temos em média um avançar de 5 minutos, e diversos panoramas privilegiados dos primeiros raios de sol no relevo texano. Em seu monólogo, Ed Tom comenta a mudança dos tempos, e o quão inexplicáveis e cada vez mais sanguinários são os crimes que vemos hoje. E já pelo seu tom de voz, percebemos que aquele xerife já percorreu muitas estradas, e mesmo eficaz em seu trabalho, não deixa de transmitir uma certa vulnerabilidade sensibilizante. Nisso, a escassez por informação se revela um mal inevitável – estar perdido em meio ao caos aterroriza. É se sentir insignificante, nulo – assim como a maioria das paisagens que nos são apresentadas: abertas, amplas, com poucos elementos, como se algo precisasse ser preenchido ali – mesmo nada podendo ser feito. E mais para frente, entenderemos como isso será rebatido.

Quando perguntado pelos Irmãos Coen se aceitaria o papel do vilão do filme, Javier Bardem respondeu: “Eu não falo inglês direito, não sei dirigir e sou feio” – logo, eles retrucaram: “E é exatamente o que precisamos”. E quem dera que este renderia seu Oscar no ano consecutivo.

O Western moderno dos Irmãos Coen não demora nem um pouco pra começar. Já na segunda cena, testemunhamos o assassinato brutal de um policial, pelo então antagonista psicótico, Anton Chigurn (Bardem). Mas a escolha de apresentar o vilão antes do protagonista tem motivo: gerar ameaça – nos dar consciência do perigo que está por vir com antecedência.

Na cena citada anteriormente, antes de morrer, o policial novato está numa ligação: “Está tudo sobre controle” – dizia ele, e ao colocar o telefone no gancho, acaba por ser sufocado por Anton. Isso diz muito sobre a insegurança que é gerada ao decorrer dos desdobramentos. Nunca sabemos quem está no controle da situação. Uma jornada de inconsistência e agonia.

Nosso protagonista, Llewelyn Moss (Josh Brolin) é apresentado em uma posição de superioridade. O mesmo encontra-se no alto de uma colina, caçando – sem esperar que em determinado momento, ele se tornará a caça. Em sua posição, é de extrema importância que a audiência simpatize com ele, e tema pela sua vida. E em alguns segundos, o acompanharemos por uma série de decisões que igualmente nos estimulam.

Llewelyn acaba de ver um rastro de sangue que se estende até um Pit-Bull agonizando, baleado, tentando se arrastar. Logo, ele avista um cenário de tiroteio. Ninguém está vivo. E lá, encontra uma maleta com 2 milhões de dólares. Ele sabe que se pegá-la, as consequências virão. Mas perde a luta para si mesmo, e a leva para casa. E convenhamos. Objetivamente, sabemos que não foi uma boa escolha. Mas em nenhum momento isso nos desconecta, porque o principal acerto na composição desse personagem é: ele é humano. Comete falhas. E da tamanha veracidade que nos é apresentada, e sabendo o mesmo da situação quanto Llewelyn, ficamos à par de suas ações, e gerando expectativas cada vez mais altas, até porque muitos dos acontecimentos-chave no longa são incrivelmente omitidos. Presume-se que algo aconteceu ali, mas nada nunca é revelado. Isso faz com que aos poucos, vamos montando as peças do quebra-cabeça, até cair a ficha de que a qualquer momento, algo pode dar errado.

E a que horas chegarão em minha porta? – É a pergunta que não sái da mente. Quando fazemos alguma coisa de errado, tememos que alguém descubra, que nosso segredo seja revelado. E a situação fica ainda pior quando a vida de quem você ama também está em jogo. E se arrependimento matasse, Llewelyn já teria morrido. O remorço que ele sente pelo peso de suas ações já não o permitem ter uma boa noite de sono.

Não há fuga sem rastros. É nesse momento que a decisão narrativa dos Coen gerará resultado. Já sabemos que não há limites para o Anton, que parece agir com um instinto animal. Calculista, frio. E de tanta insensibilidade e crueza que nos é mostrada logo no início, tememos pela fragmentação de nossa própria sanidade. Tudo isso é realçado pela constante sensação de perseguição, os pequenos detalhes, insegurança.

Provavelmente você já ouviu a expressão “depois da tempestade, vem a calmaria” – pois é, aqui é o contrário. Ficamos tão intrigados para a chegada do clímax que mal nos centranos no presente, e qualquer coisa fora do lugar, assusta, e muito. Em determinada cena, Llewelyn se muda temporariamente para um pequeno motel, e observa o estacionamento pela janela de seu quarto. Está tudo calmo. Calmo até demais. E a especulação se mantém até mesmo em cenas explosivas, quando o uso de silhuetas, mas um grande acerto na fotografia do Deakins, entra em jogo.

A lei do acaso parece ser o que vai definir a rota do Anton, que decide se mata ou não a vítima usando o clássico jogo do “cara ou coroa” – mas mal esperando que o feitiço irá contra o feiticeiro, quando em determinado momento, ele sofre um inesperado acidente de carro. E isso, pouco depois de passarmos um seguimento inteiro acompanhando todos os personagens se recuperarem (físico e mentalmente) após um exausto dia – coisa que não é sempre que se vê em um filme casual, aliás, ao esperar um conflito épico no final, os Coen simplesmete seguem por um caminho completamente diferente, podendo afastar aqueles que não compraram a ideia – até porque, uma das palavras que definem o filme, além de imprevisibilidade é: Niilismo.

Quando o personagem do Woody Harrison, um homem de negócios, entra na história com o objetivo de fazer uma proposta com o Anton, é encurralado pelo mesmo. E com o silêncio ao decorrer da cena (aliás, ausência de trilha-sonora durante o filme inteiro) – sabemos que não haverá uma esperança, uma luz no fim do túnel – aliás, não há um Deus no lugar onde os fracos não têm vez.

Veredito

O jovem clássico dos Coen é talvez um dos mais atmosféricos, enervantes e imersivos Thrillers já feitos.

10/10.

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Crítica: A Vênus Loira (1932)

Aviso: Crítica sem spoilers!


Uma mulher difícil de se entender, uma mulher difícil de se interpretar, uma mulher que ora possa parecer a pessoa mais graciosa e amorosa, ora possa parecer o ser mais frio e indolente do mundo. Não conseguimos decifrá-la. Essa é a proposta de A Vênus Loira, nos apresentar um estudo de personagem, afim de interpretarmos as ações e a incerta personalidade da protagonista.

Logo no começo do longa, nos é apresentada Helen Faraday, que, aparentemente, se sente satisfeita e apaixonada pelo marido. Mas por complicações de saúde do mesmo, e por falta de dinheiro, decide voltar a se apresentar nos palcos, que outrora havia desistido para se focar em seu casamento. Com o dinheiro em mãos, o marido parte rumo à Europa para se recuperar e deixa Helen e seu filho Johnny em casa. No entanto, ela não demonstra sentir falta ou se importar com a partida do marido, nos colocando em dúvida sobre o real sentimento que ela tem por ele. Partindo disso, acompanhamos uma série de eventos que nos fazem questionar sobre as ações, decisões e a índole dessa protagonista tão questionável.

Para dar vida a essa personagem tão conflitante, Marlene Dietrich, a diva alemã, entrega uma performance magistral. Ela equilibra perfeitamente os momentos de amor e ternura com os momentos de frieza da personagem, que sempre permanece por cima e não demonstra se abalar sobre qualquer situação. Afora as inventivas apresentações de cabaré, que Dietrich se encarrega de fazer ser um espetáculo.

A Vênus Loira é um ótimo estudo de personagem, com cenas marcantes, grandes atuações e uma história bem contada que nos leva por caminhos diferentes e inesperados. Um filme que, com certeza, merece ser lembrado e reconhecido.


Veredito

Um incomum e exótico estudo de personagem, A Vênus Loira é estrelado magistralmente pela sempre excelente Marlene Dietrich.

8/10.

Semana Heroica #9 | Crítica: Logan (2017)

No ano de 2029, onde os mutantes estavam quase sendo extintos, vemos que Logan (Hugh Jackman), também conhecido como Wolverine, está envelhecendo, pois o adamantium que está fundido em seus ossos criou um tipo de doença que enfraquece seu fator de cura, fazendo com que quanto mais Logan envelhece, mais fraco seu corpo vai ficando. Para que Logan consiga comprar alguns medicamentos, ele passa os dias trabalhando como motorista de limousine. Ele e o mutante Caliban (Stephen Merchant) vivem em uma fábrica abandonada, onde cuidam do Professor Xavier (Patrick Stewart) que está com uma doença neurodegenerativa, o fazendo perder o controle de seus poderes. Tempo depois aparece uma enfermeira que precisa da ajuda de Logan para escoltar Laura (Dafne Keen), uma garota de 11 anos, também conhecida como X-23, que está sendo caçada por um grupo de mercenários.

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Logan é um filme que mistura ação e drama de uma forma muito positiva, mostrando um mutante debilitado que sofre tanto fisicamente como emocionalmente, pois carrega muita coisa em seu passado. Mesmo com tudo isso, o filme mantém cenas de ação violentas e incrivelmente bem feitas, e isso faz com que cada vez que Logan tire as garras seja uma emoção diferente.

Todas as cenas de ação são bem sangrentas, violentas e muito bem coreografadas. Era isso que queríamos em um filme do Wolverine. Em todas as cenas em que vemos Logan em ação, vemos suas expressões extremamente marcantes e que não podem faltar no personagem.

Hugh Jackman fez um trabalho incrível, que passa as emoções do protagonista para os telespectadores, fazendo com que sintam tudo o que Logan está sentindo. O Wolverine de Jackman jamais será esquecido e sempre estará nos corações dos fãs, assim como Patrick Stewart sempre será Professor Xavier, e que teve uma atuação sensacional no filme.

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Apesar de todo o drama do filme, o longa contém algumas cenas de alívio cômico que Laura nos entrega, uma personagem extremamente necessária, que quebra um pouco do drama e que possui habilidades como a de Logan. Suas cenas são muito divertidas de ver, pois é quase uma novidade assistir uma criança de 11 anos esquartejando mercenários. Também contém cenas, as quais Logan tem um forte laço paterno com Laura, que faz com que o público se envolva completamente com esses personagens.

A fotografia do filme é um ponto muito alto, pois a ambientação é bem utilizada, junto com o movimento de colocação da câmera e posições dos personagens. Com um ambiente meio desértico, sua fotografia lembra muito a de filmes de faroeste. O movimento da câmera em cenas de ação são ótimos, pois é bem colocada em relação aos de Logan.

A trilha sonora também chega a ser muito interessante, pois o filme não conta com muitas músicas de fundo, ele conta mais com o som do ambiente, que ajuda a manter certo drama nas cenas.

Não só estes detalhes técnicos anteriores, mas a maquiagem e os efeitos práticos do filme são muito bem feitos e introduzidos, fazendo com que o telespectador veja o quão velho e debilitado Logan está. O longa não conta com muito uso nos efeitos especiais, é apenas usado em partes que seja de extrema importância, como em algumas cenas de ação, no uso do poder do Xavier ou do Wolverine, mas, é mais usado o efeito prático, que consegue trazer uma sensação mais real de tudo o que está acontecendo.

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Com certeza, o roteiro do filme é o melhor de todos os filmes de super-heróis da Marvel, tanto que recebeu uma indicação ao Oscar para Melhor Roteiro Adaptado. Logan encerra os filmes do Wolverine de maneira muito triste e emocionante, com um desfecho incrível e que será impossível de esquecer.


Veredito

O filme é incrível, contém cenas de ação espetaculares, um drama pesado e muito bem desenvolvido. É um encerramento digno de uma série de filmes, e que promete que pode haver mais filmes do mesmo universo. Palavras não são o suficiente para descrever a importância e a qualidade de Logan.

10/10.

Crítica: 1917

Aviso: Crítica sem spoilers!


A Grande Guerra vista de perto.


O mais novo filme de Sam Mendes, com 10 indicações ao Oscar, e tendo levado 3 estatuetas, é uma bela façanha de produção e eficácia num longa que trata de guerra. A percepção do diretor acerca do assunto, fez com que muitos fãs de filmes de guerras e historiadores, mergulhassem num ambiente brutal e épico que é 1917.

Em tempos mais modernos no cinema, ver uma produção de guerra em grande escala não é tão difícil. Filmes biográficos de heróis como Até o Último Homem, ou de um clima mais tenso e pesado como Dunkirk. Porém, é, de fato, difícil ver grandiosas produções da Primeira Guerra Mundial. Uma mais recente foi Mulher Maravilha, mas convenhamos, não é um filme de guerra como de costume. A ação de 1917 começa logo nos primeiros 10 minutos. Não há parada parada para descanso.

Os dois protagonistas do começo, Cabo Schofield (George MacKay) e o Cabo Blake (Dean-Charles Chapman), tem a missão de levar uma mensagem do General Erinmore (Colin Firth) para cessar um ataque contra as tropas alemãs em Croisilles. Uma única carta teria de salvar 1600 homens do Coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch), entre eles o irmão de Blake. Com a confirmação do recuo alemão no Front Ocidental, os Cabos ingleses logo partiram para a longa jornada. O recuo das tropas alemãs era apenas uma tática para que os ingleses caíssem na armadilha. A chamada Operação Alberich consistiu na retirada estatégica alemã para a Linha Hindeburg, que era mais curta e em nova posição, facilitaria a defesa contra a Entente em território francês.

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Numa mistura de real com originalidade, o diretor molda o roteiro em cima das histórias de seu avô, este que esteve em trincheiras e por muitas vezes foi mensageiro. Na mesma medida, ele traz o trabalho do avô para o filme, fazendo do protagonista um mensageiro improvisado que corre contra o tempo.

Enquanto Blake e Schofield atravessavam a Terra de Ninguém, tivemos um lindo vislumbre do ambiente, das trincheiras e de tudo que uma guerra proporciona. Corpos de soldados, ratos, armas destruídas, campos enlameados com poças d’água e um dia nublado, para manter ainda mais o clima pesado. Os movimentos da câmera nos permitiam ver tudo, até os mínimos detalhes. A câmera sempre seguia os protagonistas, não desviando nenhuma vez. Sem cortes de cenas, mantendo um plano-sequência contínuo, Roger Deakins consegue manter o espectador sempre de olho no filme, para que nenhum detalhe da trama escape.

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Assim como na cinematografia, Deakins cuidou da fotografia de forma minuciosa, usando cores mais escuras ao decorrer do filme, para transmitir a dor e a tragédia de uma guerra. Em momentos mais oportunos, usava cores quentes, mas não com tanta frequência. A montagem de Lee Smith e o design de produção de Dennis Gasner contribuíram de forma espetacular. Faz com que quem está vendo, se sentir dentro da Grande Guerra, combatendo as forças inimigas na França. Num todo, a escolha do ambiente para as filmagens, e sempre em dias mais nublados, ajudou muito no processo final.

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A direção tensa de Mendes proporcionou muitos momentos de suspense e angústia. Após uma cena de tiroteios e o total apagar das luzes, a cena de fuga precisou um pouco de abafo para acalmar os espectadores. Foi nesta cena que Schofield descobre o caminho certo para a conclusão da missão. Não demorou tanto assim para a ação começar novamente, e já se encaminhando para o final do filme.

O final estrondoso, em meio a trincheiras com centenas de soldados entrando para o ataque contra os alemães, desfaz do momento calmo de uma canção inglesa dos soldados, para construir o maior momento do filme. Tudo parecia acabado para Schofield, até que os soldados fazem algumas perguntas e depois afirmam ser os Devons, o pelotão que o Cabo tem a missão de salvar. Era nítido a exaustão do soldado na reta final. Mesmo ferido, ele seguiu seu caminho. E é aí que a excepcional trilha sonora de Thomas Newman entra na discussão. A mistura de drama, suspense, epicidade e heroísmo em uma apenas uma faixa torna a trilha de 1917 uma das melhores de filmes de guerras já feitas, se não a melhor. E também uma das melhores do ano, que deveria muito bem reconhecida. Não só Sixteen Hundred Men como destaque, mas Gehenna e Night Window conseguem ser tensas e com momentos de suspense. Newman acerta numa trilha sonora espetacular, misturando paz, tragédia, medo, suspense, angústia e tensão para formar a épico que o 1917 precisava.

Na trincheira, o cansaço evidente de Schofield parecia ter sido deixado de lado e substituído pela persistência. MacKay mostrou até aonde vai os limites do ser humano, forçando o físico ao máximo para alcançar o objetivo. O medo nos olhos de alguns soldados, a raiva e o desespero de comandantes torna o plano-sequência final glorioso. No meio de explosões e de soldados machucados, o Cabo perfilava seu caminho até o Coronel, para cessar o ataque. Tendo 30 segundos e 270 metros, para entregar a mensagem, Schofield teria de passar no campo aberto. E é o ponto máximo do filme, mostrando até onde o homem pode chegar. Com certeza, a travessia do Cabo com a trilha ao fundo, fez com que a cena fosse a melhor do filme e uma das mais incríveis de todos os tempos.

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George MacKay e Dean-Charles Chapman se entregaram para seus personagens. A atuação magnífica por parte de MacKay, tornando seu personagem icônico e tão realista quanto, sentindo medo, desafiando seus limites e tendo a mais pura força de vontade, além da saudade que o cerca no final, pensando no tempo que iria voltar a ver quem ama.

1917, por sua vez, recria e explora o momento mais sombrio da humanidade. A Grande Guerra, que devastou o mundo, com massivos ataques, tecnologia absurdamente avançada, recriou territórios e redesenhou o mundo moderno, é a prova de que não deve ser esquecida pela sétima arte. Um conflito horrível e pesado, que merece mais atenção dos estúdios, enquanto estes produzem obras sobre a Segunda Guerra Mundial, saturando um tema tão batido, e fazendo a Primeira Guerra Mundial cair no abismo do esquecimento.


Veredito

1917 documenta uma das mais devastadoras das guerras de forma jamais vista nos cinemas. O drama épico de guerra usufrui de todos os elementos necessários para uma produção de grande escala, trazendo à tona, um realismo absurdo e uma humanidade inquestionável por parte dos protagonistas. Com um plano-sequência invejável, não se perde os mínimos detalhes com o passar do longa. O ambiente em que foi filmado, faz com que o espectador fique imerso na batalha durante todo o filme, sem perder o foco por um segundo. A fotografia impecável, torna ainda mais sombrio e tenebroso o clima da obra.

Com uma trilha sonora e uma atuação majestosa e cheia de tensão, 1917 explora o drama de soldados entrincheirados, temendo o que vai acontecer depois. Sam Mendes mostra o quão persistente e humano o homem consegue ser, mesmo num ambiente tão desumano.

10/10.

Crítica: Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

Aviso: Crítica sem spoilers!


Que filme fantabuloso!


Depois do desastroso Esquadrão Suicida, a DC fez questão de tentar enterrar o filme e fazer com que os fãs o deixassem em esquecimento. Mesmo com defeitos, o filme teve um ponto positivo que a editora fez questão de salvar. Seu nome? Arlequina.

Com isso, a nova aposta da editora foi fazer um filme especialmente para a vilã, tentando desvencilhar da ideia do Esquadrão e do Coringa esquecível de Jared Leto. Boa parte dos fãs queriam que ele fosse esquecido, mas que Margot Robbie não. Cathy Yan, então, entrou na jogada após a roteirista Christina Hodson apresentar seu trabalho. Seria mais um filme de heróis dirigido por uma mulher. Claro que, um filme somente da Arlequina seria talvez uma loucura, justo por ela ser uma vilã. Mas, a ideia foi intrometer as heroínas junto dela, unidas uma a outra, criando a primeira equipe estritamente feminina de heróis nos cinemas.

Em Aves de Rapina, a Arlequina é, tanto narradora quanto a protagonista do filme. É realmente um filme sobre ela, já que no título diz “Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”. Ela procurava por emancipação, e seria do Coringa, após supostamente ter rompido relacionamentos com com o Príncipe Palhaço do Crime. Com isso, ela estaria livre para fazer o que quiser, sem que alguém estivesse a controlando. Entretanto, não era só a mulher que amava o Bobo do Genocídio que procurava isso, mas sim, mais três queriam liberdade. Uma detetive, uma justiceira e uma cantora. Todas queriam, ou se livrar das formas de abuso, ou procurar se libertar de um trauma.

Os flashbacks foram o ponto focal do primeiro ato, que pareceu bagunçado, mas, ao longo do filme, foi tudo se alinhando e formando a arte final. Ao meio de que Harley explicava sua situação diante da solidão presente, ela trombava com as outras protagonistas, relatando suas origens ou quem de fato são. O enredo moldou cada passo de todos os personagens, conseguindo unir os interesses de querer derrubar o vilão, Máscara Negra (Ewan McGregor).

Além da brilhante Arlequina, há ainda mais mulheres querendo emancipação, como dito no terceiro parágrafo. Renee Montoya (Rosie Perez), é uma detetive muito aplicada, que costuma sempre resolver os crimes. Ela não ganha seu crédito, passando tudo para seu antigo parceiro, que foi promovido para capitão. A Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), é cantora do clube do Sionis, no qual ela é intocável para o vilão, sendo um objeto apenas dele. Já a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), teve sua origem contada no filme, que parece ter pulado dos quadrinhos. Cassandra Cain (Ella Jay Basco) foi quem uniu a equipe, ou pelo menos três das quatro personagens. Num resumo rápido, Cain é uma menina pobre, que vive no mesmo prédio que Dinah Lance, e sai para roubar nas ruas, com sua habilidade em furtividade. Num momento ingênuo, ela rouba Victor Zsasz (Chris Messina), que estava encarregado de pegar o diamante para seu chefe, Roman Sionis.

O segundo ato já começa a desenrolar a história, conectando os relatos de Harley sobre as outras mulheres. As aparições da Caçadora por fora, buscando vingança de todos que mataram sua família, faz uma sub-trama muito interessante, e consegue se encaixar na trama principal. Assim como a Renee Montoya, que se interliga a cenas de assassinatos causadas pela Caçadora. Não demorou muito para as cenas de ação entrarem em prática, sendo tão memoráveis e divertidas quando vemos pelos olhos da Arlequina. A sequência da delegacia é, com certeza, a melhor de ação do longa, contando com uma trilha sonora marcante e uma fotografia invejável. A Rainha de Gotham explora seus métodos de combate com o uso de utensílios, arma e bastão para salvar a pele de Cassandra Cain, a qual o Máscara Negra estava atrás. Até pacote de cocaína voou.

Já que o Sionis foi mencionado, é preciso parar pra falar da incrível atuação de Ewan McGregor. Roman Sionis não passa apenas de um mafioso de primeira classe, mas um vilão quase terciário na galeria do Batman. Sionis vem de uma família rica de Gotham, que foi deixado de lado após fracassar na empresa de cosméticos do pai. Com isso, ele começou a carreira no mundo do crime com a herança que lhe foi deixada. O sadismo, os requintes de crueldade e desejo alheio das coisas o tornam ainda mais amedrontador, quando ao mesmo tempo, ele consegue ser carismático e tenta ser extrovertido. Victor Zsasz é o outro lado da moeda, pois é ele quem mata para o Sionis. Ambos tem uma grande conexão de ver o sangue escorrer. O conflito interno de Roman ao colocar a máscara, e o desejo de ter tudo na mão e um outro ponto positivo no vilão.

Encaminhando para o terceiro ato, o filme R-Rated da DC faz belas e memoráveis cenas de ação, coreografadas de forma espetacular. Sionis decide matar todas que estivessem ao lado de Harley, sem piedade, para caçar o diamante. As belas lutas que, sejam elas em conjunto ou individuais, fazem o filme ter um espetáculo de coreografia. A Caçadora, em especial, tem incríveis cenas com a besta e na Casa dos Horrores, palco da luta final. Mesmo com o tempo de tela curto, Helena rouba todas as cenas em que aparece, assim como a Canário quando se trata de lutar. A sequência de ação da Arlequina consegue ser as melhores do filme, explorando suas habilidades de ginasta e com patins. Aliás, por que não tivemos cenas de luta com patins e o martelo dela antes?

A estética de Aves de Rapina, em um todo, consegue ser perfeita para a proposta do filme. O longa não passa uma lição de moral perceptiva como alguns outros. Porém, o título fala por si só: “Emancipação”. Se libertar de algum tipo de abuso, seja ele físico, psicológico ou mesmo no trabalho, sem reconhecimento de seus feitos. O figurino, que remete até os anos 80 – caso da Canário Negro – é, de fato, um dos pontos positivos do filme, tanto a roupagem estilista de Sionis, quanto as novas formas da Arlequina mostrar sua persona.

Não só o figurino, mas a trilha sonora, com músicas inéditas tão boas quanto Esquadrão Suicida. Cathy Yan, também acerta num visual deslumbrante de Gotham, mostrando ela tanto ao dia, quanto a noite, e o quão ela pode ser sombria em certos momentos do filme. A pura diversão de Aves de Rapina se destaca como nenhum outro filme de herói, mas claro, tendo momentos de seriedade e muita brutalidade.


Veredito

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa relembra as histórias de Mad Love, de Paul Dini e Bruce Timm, trazendo uma Arlequina sozinha no mundo, independente do Coringa. A energia de Margot Robbie é contagiante aos ombros da personagem, que é protagonista em todo o filme. Ela nasceu para interpretar a Quinn. Jurnee, Mary Elizabeth e Rosie Perez, são coadjuvantes memoráveis, que conseguem garantir seu espaço ao decorrer do filme. Não só as heroínas, mas os vilões de Chris Messina e Ewan McGregor fazem jus aos quadrinhos. Principalmente Ewan, numa forma excepcional, se entrega para interpretar um Máscara Negra digno.

Embora o começo seja confuso, o encaixe final amarra tudo, sem deixar pontas soltas, mantendo a atenção do espectador, equilibrando diversão com ação e drama. A DC não teve medo de abraçar a ideia de fazer uma Arlequina sem amarras, um filme colorido e divertido pelos 109 minutos que parecem passar rápido. Os trailers não entregam em nada o filme. Com Aves de Rapina, a DC caminha para novos horizontes, podendo ter spin-offs, expandindo ainda mais seu universo nos cinemas.

8,5/10.

Crítica: Crise nas Infinitas Terras

Alerta: SPOILERS! Desça e leia por sua conta e risco.


“Vida, um presente precioso que persevera diante de todos os obstáculos.”


Chegou ao fim mais um crossover, e o mais grandioso de todos, Crise nas Infinitas Terras, que contou com cinco séries da DC e pela primeira vez juntou todas (quase) as séries da DC, variando do DC Universe à CW. Mas não só juntou todas as séries da DCTV, como também trouxe de volta personagens de séries antigas. Tom Welling, protagonista de Smallville, Burt Ward como o Robin aposentado da série do Batman dos anos 60, e até mesmo, Brandon Routh, que reprisou seu papel como Superman após 14 anos.

O começo estrondoso do crossover, começou mostrando referências ao Batman de Michael Keaton, quando o jornalista Knox (Robert Wuhl) estava lendo um jornal sobre a prisão do Coringa. Em outros momentos as aparições repentinas de Jason Todd e Rapina no primeiro episódio, levaram a acreditar que a CW estava disposta a juntar tudo para fazer parte do Arrowverso.

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Do primeiro ao último episódio, houve momentos marcantes. A morte precoce do Arqueiro Verde (Stephen Amell), abalou todos que lutaram ao seu lado, ainda mais Sara (Caity Lotz), Supergirl (Melissa Benoist) e Flash (Grant Gustin). Não só os heróis, mas como também os fãs, pois ninguém esperava que o sacrifício de Oliver seria logo no começo da Crise. Isso enfureceu muita parte dos assíduos ao Arrow, que logo começaram com teorias de como o personagem voltaria à vida. Com isso, os outros quatro episódios foram se desenrolando e aproximando toda a equipe, em prol de salvar o universo contra a grande ameaça, o Anti-Monitor.

Logo no segundo episódio, este que conteve ótimos fã-services, o quarteto composto por Constantine (Matt Ryan), Mia Smoak (Kath McNamara), Barry e Sara vão reviver Oliver em um dos poços de Lázaro. A alma de Oliver após ele voltar à vida não estava em seu corpo, e sim, no Purgatório.

No mesmo episódio, o Monitor (LaMonica Garret) fala sobre os Protetores, e nisso entram várias e várias referências, tanto dos quadrinhos quanto do cinema. Após Lex Luthor (Jon Cryer) recuperar o Livro do Destino, ele buscaria matar todos os Superman. Numa questão de minutos, houve referência a Morte do Superman e ainda trouxe a aposentadoria do Superman de Tom Welling. Mas o melhor ainda estava por vir. O encontro do Superman da Terra-38 (Tyler Hoechlin) com o Superman da Terra-96 (Brandon Routh). Ficou nítido do que o Protetor da Verdade se tratava, era um Escoteiro que perdeu amigos e sua esposa pelas mãos do Coringa, este que jogou seu gás no Planeta Diário. Marc Guggenheim transformou Brandon Routh num espelho de Christopher Reeve e no Reino do Amanhã.

A atuação incrível de Routh merece destaque, pois ele consegue transmitir um Superman ao estilo de Reeve, levando esperança aonde puder. A luta entre os dois super-heróis foi ótima, relembrando Superman III. Mesmo pelo baixo orçamento, conseguiram fazer com que esta luta fosse a melhor do crossover.

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“Porque, Lois, mesmo nos tempos mais sombrios, a esperança persiste. Esperança é a luz que nos guia para fora da escuridão.”

Não só o surpreendente Routh como Homem de Aço, mas também o dublador Kevin Conroy, que surpreendeu todos com a versão mais obscura do Batman já feita até então. Mesclando Reino do Amanhã e Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, Conroy faz jus ao seu título de Cavaleiro das Trevas. Outra boa surpresa foi a própria Batwoman (Ruby Rose) substituindo Batman como a Protetora da Coragem.

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“Não lute contra monstros, para você não se tornar um monstro.”

A terceira parte de Crise terminou de forma memorável, quando o Flash da Terra-90 (John Wesley Shipp) se sacrifica para salvar Raio Negro (Cress Williams), Barry e outros. O hiato de mais de 1 mês para lançarem os outros dois episódios, deixou tudo em aberto sobre o futuro de Oliver Queen, que fora mostrado no anterior se tornando o Espectro. O novo Espectro, que no quadrinho foi Hal Jordan, o Lanterna Verde, agora iria auxiliar os Protetores a salvarem o multiverso, que já tinha chegado em seu fim.

O Ponto de Fuga, lugar o qual os heróis se encontravam, era onde eles deveriam se unir para derrotar o Anti-Monitor. O sacrifício do Arqueiro ainda contou com seu antigo bordão.

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“Você falhou com este universo.”

Mesmo com a “morte” do Anti-Monitor, o Multiverso havia sido reformulado por Oliver, fazendo com que as pessoas não se lembrem de nada, e outros heróis que sumiram pela anti-matéria também. As terras se combinaram, juntando Supergirl e outros personagens da Terra-38 com os heróis da Terra-2, formando a Terra Primária.

O episódio final de Crise nas Infinitas Terras, foi sem dúvida, o mais divertido e emocionante. Apesar do sumiço repentino de Ryan Choi (Osric Chau), um dos protetores, o final consegue manter e elevar o patamar de todo o Arrowverse e sua importância para a DC. Não só com a conexão do cinema com as séries, como foi visto o Flash de Ezra Miller conversando com o de Grant Gustin, mas como eles conseguiram adaptar a saga de Marv Wolfman e George Pérez para a televisão.

As referências eram tão constantes que poderia explodir a cabeça de qualquer um e fazer se perguntar: “Como eles fizeram isso?”. Simples, eles tiveram coragem em juntar tudo do melhor do Universo DC e colocar no roteiro. A homenagem também aos escritores do quadrinho foi algo bem bacana de se ver. Marv Wolfman aparece em uma das cenas pedindo autógrafo ao Flash, e Pérez é mencionado como um lugar na cidade.

O final foi tentou ser o mais nostálgico possível, com a narração de Oliver e a reconstrução do Multiverso. Juntando todas as séries possíveis da DC em suas respectivas terras, o final foi tão glorioso quanto o título que o crossover leva. A comovente homenagem ao Arqueiro Verde também se fez presente. E num momento de tristeza, houve alegria, após Barry mostrar a Mesa da Justiça aos heróis, criando a Liga da Justiça.


Veredito

Marc Guggenheim traz junto com outros roteiristas e produtores, a difícil missão de reiniciar o Multiverso. O crossover que fora inspirado na HQ de Marv Wolfman, mostra o quão trabalhoso pode ser, mas também o quanto glorioso pode ficar. As lutas foram ótimas falando de séries, e a trilha sonora foi incrível e inspiradora. A entrega de uma atuação emocional por parte de Caity Lotz, Stephen Amell, Melissa Benoist e Grant Gustin, fazem do evento televisivo um épico dramático de herói. Outros rostos como Brandon Routh e Dominic Purcell, mantém ainda a diversão necessária para o mega crossover, sendo alívio cômico certeiro em seus momentos.

Crise nas Infinitas Terras encerra definitivamente a jornada do Arqueiro Verde de forma memorável, mas que poderia ter sido ainda mais como vigilante, e não uma entidade cósmica. A morte precoce do herói foi um duro golpe aos fãs, por ser inesperado, mas a volta, o sacrifício para salvar o universo e a homenagem, conseguem ser ainda marcantes. Um ciclo se fecha para outro iniciar.

9/10.