Todos os posts de Leonardo Monteiro

📽🥀 Encantado por simbolismos e referências da vida no Cinema. Admirador insaciável de Denis Villeneuve e Stanley Kubrick.

Crítica: Judas and the Black Messiah (2021)

Aviso: Crítica sem spoilers!


Você pode matar o revolucionário, mas não pode matar a revolução” – é a frase que carrega a energia que precisávamos. Judas and the Black Messiah mostra que a luta ainda não acabou.

E o jovem diretor Sasha King sabia bem do quão atual seria sua obra, tanto em repercussão e na temática, que permanece necessária, mesmo nos embarcando no cenário caótico que os Estados Unidos vivia na década de 60 – que por sinal, é divinamente reconstruída, trazendo certamente tomadas memoráveis – mostrando o início e ascensão do Partido dos Panteras Negras.

818171cd00f612802892a7cb136cefc6.jpg

Em contrapartida, o elenco se sobressai fortemente de quaisquer outros aspectos. Daniel Kaluuya, que interpreta Fred Hampton, líder do movimento, gera automaticamente uma confiança estrondosa em cena. Seu olhar experiente serve de refúgio em situações de calamidade. Já Lakeith Stanfield, que interpreta Willian O’Neal, infiltrado enviado do FBI para silenciar as ações se Hampton, é eficaz em constatar insegurança.

Diante dos eventos históricos já conhecidos, há uma espécie de “efeito Era uma Vez em Hollywood” – onde já sabemos para onde a trama está se encaminhando. E próximo do clímax, há o que podemos chamar de ápice energético. Mas infelizmente, nesse meio termo, o roteiro adaptado pelo próprio Sasha King, junto do estreante Will Berson, se mostra ligeiramente falho.

Acontece que a maioria dos eventos que serão desencadeados no segundo ato parecem ocorrer de forma automática, já que devem ser retratados como os fatos reais – como tivessem que ser inseridos a qualquer custo. Isso retira um pouco do brilho da apresentação inicial, que encanta pelo virtuosismo estético e contradiz com a vivacidade anteriormente vista.

O mesmo se pode dizer sobre os demais personagens, que parecem mais uma representação simbólica do que uma personificação individual, assim como a própria atmosfera, que em determinado momento, soa mais como uma ilustração do contexto político da época. Dominique Fishback, que interpreta a namorada de Hampton, não apresenta destaque em sua performance rasa, e o talentoso Jesse Plemons está apenas operante em seu papel.

Até que, a falta de impacto que até então dominava – mesmo pontualmete com cenas de destaque – é aí que chegamos no terceiro ato, onde King é cirúrgico e brilhante em escancarar a brutalidade policial e a máxima repressão  poderia ser imposta. Estamos falando do brutal assassinato de Hampton, e dos demais membros do partido, numa cena de tirar o fôlego. E mesmo após um tremendo choque, sabemos bem que seu legado jamais será apagado.

Com isso, a relativa queda durante a segunda metade pode ser ofuscada. Mas com um encerramento digno, Sasha King se consagra um dos fortes nomes de sua geração, com uma direção exuberante em estilo e em domínio da narrativa, que encanta ao som de uma trilha sonora atraente.


Veredito

Com direito até mesmo a uma pequena metalinguagem envolvendo o Oscar, Judas and the Black Messiah é potente e cirúrgico.

8/10.

Anúncios

Crítica: Malcolm & Marie (2021)

Aviso: Crítica sem spoilers!


Não é difícil ser grato. Mas é comum não sermos agradecidos por pequenos gestos de quem convive conosco. Malcolm & Marie flui com base em como somos tão ingratos e nos importamos tanto com pequenas falhas dos outros. Aliás, nenhum “obrigado” é tão frequente quanto um “faça direito!” – essa é a essência humana.

A trama econômica evolui ao som de um jazz melódico que realça a estética sofisticada. Tendo como cereja do bolo o fato de inter-dialogar com o próprio cinema, retrata como há uma onipresente reflexão, mesmo que indireta, da vida real, independente da trama ou contexto histórico, cada filme pode ser um retrato de sua sociedade ou época, assim como há aqui o aberto discurso para maior representatividade na indústria.

107b634cd26a88a92774c061ed320088.jpg

O visual requintado dialoga muitíssimo bem com uma química de sedução constante – isso quando não alterna entre momentos de histeria. Além da cinematografia de Marcell Rév, que ajuda a estabilizar a moderna ambientação. Diante disso, as performances são extremamente concisas e convincentes, circulando perfeitamente bem com a composição e tom criados, onde nenhum se sobrepõe do outro.

E é tudo uma questão de valorização: Malcolm (John David Washington) após retornar da sessão de estreia do seu novo filme junto de sua noiva, Marie (Zendaya) passa por uma discussão quase interminável, que recapitula erros passados, como se algo os impedisse de demonstrar consideração pelo presente.

Até que em determinado momento, o vai e vem pode soar repetitivo, já que não há muitos pontos na trama a se decorrer. Mas nada muito diferente do que nossa própria rotina: indecisões frequentes, despertar de coerências, gatilhos – é pura angústia, mas isso é porque somos carentes demais, nunca estaremos satisfeitos o bastante.

Isso se reflete bem na cena em que Malcolm, tomado pela ansiedade, se altera ao ler uma crítica recém lançada de seu filme. E ainda por cima, a crítica era positiva. Isso nos faz perder o velho ditado: “O que vem de baixo não me atinge” – quando qualquer oportunidade, como as oferecidas ao próprio Malcolm, são auto-insignificantes.

Isso desperta, involuntariamente, uma sensação culposa de ciúme por quem está ao seu redor. Talvez por isso, os dilemas apresentados à personagem da Zendaya possam ser mais delicados, ainda mais quando em certo ponto, fica subentendido o início melancólico de seu relacionamento, que é certamente o ápice emotivo do longa, que por sinal, acerta em cheio ao deixar diversas outras circunstâncias externas implícitas.

De modo geral, com movimentos de câmera e uma atmosfera luxuosa, mesmo sendo um pouco auto-indulgente, o talentoso diretor Sam Levinson, da série Euphoria, não conta apenas com o carisma de seu elenco para trazer uma obra mais do que satisfatória.


Veredito

Simples e eficaz, Malcolm & Marie trabalha seus temas de forma inteligente, carregado por atuações de alto nível.

9/10.

Anúncios

Crítica: A Escavação (2021)

Atenção: Crítica sem Spoilers!

A nova aposta da Netflix funciona como uma versão clichê de Sangue Negro – mas não que seja necessariamente ruim. E lógico, a comparação radical demonstra bem a estratégia que a plataforma de streaming milionária vem preparando para 2021.

Se tematicamente lembra a obra-prima dirigida pelo Paul Thomas Anderson, esteticamente está a anos-luz de igualar-se. E até que inicialmente, alguns tracking shots utilizados pelo diretor Simon Stone arriscam garantir certa imersão, mas a instabilidade na narrativa e na composição estilística afetam na identidade do produto. Claro, nada muito diferente do que a Netflix vem apresentado para seu público médio. Aliás, até pode-se dizer que aqui há uma mínima tentativa de diferenciar-se de tal. E nessa perspectiva, o conjunto final pode sim ser encaixado como funcional.

Boa parte disso se deve por um elenco que parece estar confortável. Em especial, o Ralph Fiennes (Voldmort da saga Harry Potter) carrega uma experiência convincente e carisma ao ponto. Sua relação com a personagem da Carey Mulligan, mesmo soando incompleta, mantém seu núcleo por boa parte estável, já que sua problemática fica em segundo plano até o terceiro ato. E se há algum senso de preocupação, é rasteiro, e emocionalmente não é carregado como deveria pela performance do ator mirim Archie Barnes, que está longe de impressionar, tornando claro então, este não ser o principal objetivo a ser alcançado pelo longa.

O roteiro adaptado do romance baseado na história real escrito por John Preston situa-se nas vésperas da segunda guerra mundial, e acompanha uma mulher que após a morte de seu marido, contrata um arqueólogo para escavar as terras por trás da casa. Logo, com a introdução de novos personagens, que de nada vital acrescentam, o melodrama de poucas substâncias vive de sua ambientação, que gera sim tomadas interessantes. Mesmo sóbrio em seu caminho, constantemente tenta se auto celebrar, utilizando os conflitos internos da época como pano de fundo básico, muitas vezes narrado, além da ausência de algo estar em jogo que tira qualquer peso, mas não um ar de jornada a ser enfrentada. No contrário: é bastante simples, e foca fisicamente nos esforços do personagem do Fiennes, que não teve seu nome creditado no final da operação, dando então certa razão para a existência do filme.

E a escolha até seria válida, caso contivesse uma direção que trabalhase melhor pontos como ação – reação, manipulação do tempo e soubesse deixar balanceado todas as linhas que cria, como o pedestre romance envolvendo a personagem da Lily James, que apresenta uma boa caracterização não tão bem aproveitada, acompanhado por uma trilha sonora de pouca criatividade.

Mas se o drama morno não empolga, a montagem parece querer dar um valor a mais do que realmente vale. Mas nada de manipulação – na verdade, a estratégia é concisa e parece estar pisando em terra firme, até porque essa é a estrutura do filme: segmentos chamativos, estimulantes e organicamente alegóricos, com êxito na fotografia do Mike Eley, que traz vivacidade ao solo através de um céu constantemente fluorescente, com bom uso de silhuetas em belos takes ao anoitecer, que manifestam um clima agridoce e genuinamente confortável.

Próximo da finalização, toca brevemente em temas como ansiedade, o lidar com a morte – mas sem se aprofundar muito, prejudicando um pouco na firmação da nota final, que não sabe bem qual reação dar. Inegavelmente com alguns acertos, de modo geral a obra vai agradar seu público alvo, e ao menos, não deve incomodar aqueles mais exigentes.

Veredito

Tendo como base boas cenas isoladas e performances dedicadas, certamente há o que se gostar em A Escavação, uma aposta válida da Netflix. 

6,5/10.

Crítica: Onde os Fracos Não Têm Vez

Aviso: Crítica sem spoilers!



Não são todos os realizadores cinematográficos que compreendem a importância de respeitar a imaginação do espectador. A ausência de um personagem explicando o que está acontecendo toda hora gera não apenas um maior entrosamento entre o público com o que está sendo apresentado em tela, como estimula também nosso raciocínio.

É baseado nisso que a adaptação homônima de 2007 do romance Onde os Fracos Não Têm Vez, escrito por Cormac McCarthy, entra em destaque.

Roteirizado e dirigido pelos Irmãos Coen, que desde pequenos são apaixonados pela sétima arte, não vêem muita diferença entre brincar com suas câmeras e fazer seus filmes amadores quando crianças e dirigir um longa-metragem de alto orçamento e com um elenco de peso.

“Não irei apostar minhas fichas em algo que não sei onde vou me meter. Prefiro dizer: tudo bem, farei parte desse mundo.”

O convite: o filme inicia com a narração do xerife Ed Tom, que mesmo já tendo idade para se aposentar, persiste em permanecer no departamento de polícia do Texas. Suas palavras são ouvidas em imagens belíssimas do amanhecer, fotografadas por ninguém mais, ninguém menos que Roger Deakins. A cada take, temos em média um avançar de 5 minutos, e diversos panoramas privilegiados dos primeiros raios de sol no relevo texano. Em seu monólogo, Ed Tom comenta a mudança dos tempos, e o quão inexplicáveis e cada vez mais sanguinários são os crimes que vemos hoje. E já pelo seu tom de voz, percebemos que aquele xerife já percorreu muitas estradas, e mesmo eficaz em seu trabalho, não deixa de transmitir uma certa vulnerabilidade sensibilizante. Nisso, a escassez por informação se revela um mal inevitável – estar perdido em meio ao caos aterroriza. É se sentir insignificante, nulo – assim como a maioria das paisagens que nos são apresentadas: abertas, amplas, com poucos elementos, como se algo precisasse ser preenchido ali – mesmo nada podendo ser feito. E mais para frente, entenderemos como isso será rebatido.

Quando perguntado pelos Irmãos Coen se aceitaria o papel do vilão do filme, Javier Bardem respondeu: “Eu não falo inglês direito, não sei dirigir e sou feio” – logo, eles retrucaram: “E é exatamente o que precisamos”. E quem dera que este renderia seu Oscar no ano consecutivo.

O Western moderno dos Irmãos Coen não demora nem um pouco pra começar. Já na segunda cena, testemunhamos o assassinato brutal de um policial, pelo então antagonista psicótico, Anton Chigurn (Bardem). Mas a escolha de apresentar o vilão antes do protagonista tem motivo: gerar ameaça – nos dar consciência do perigo que está por vir com antecedência.

Na cena citada anteriormente, antes de morrer, o policial novato está numa ligação: “Está tudo sobre controle” – dizia ele, e ao colocar o telefone no gancho, acaba por ser sufocado por Anton. Isso diz muito sobre a insegurança que é gerada ao decorrer dos desdobramentos. Nunca sabemos quem está no controle da situação. Uma jornada de inconsistência e agonia.

Nosso protagonista, Llewelyn Moss (Josh Brolin) é apresentado em uma posição de superioridade. O mesmo encontra-se no alto de uma colina, caçando – sem esperar que em determinado momento, ele se tornará a caça. Em sua posição, é de extrema importância que a audiência simpatize com ele, e tema pela sua vida. E em alguns segundos, o acompanharemos por uma série de decisões que igualmente nos estimulam.

Llewelyn acaba de ver um rastro de sangue que se estende até um Pit-Bull agonizando, baleado, tentando se arrastar. Logo, ele avista um cenário de tiroteio. Ninguém está vivo. E lá, encontra uma maleta com 2 milhões de dólares. Ele sabe que se pegá-la, as consequências virão. Mas perde a luta para si mesmo, e a leva para casa. E convenhamos. Objetivamente, sabemos que não foi uma boa escolha. Mas em nenhum momento isso nos desconecta, porque o principal acerto na composição desse personagem é: ele é humano. Comete falhas. E da tamanha veracidade que nos é apresentada, e sabendo o mesmo da situação quanto Llewelyn, ficamos à par de suas ações, e gerando expectativas cada vez mais altas, até porque muitos dos acontecimentos-chave no longa são incrivelmente omitidos. Presume-se que algo aconteceu ali, mas nada nunca é revelado. Isso faz com que aos poucos, vamos montando as peças do quebra-cabeça, até cair a ficha de que a qualquer momento, algo pode dar errado.

E a que horas chegarão em minha porta? – É a pergunta que não sái da mente. Quando fazemos alguma coisa de errado, tememos que alguém descubra, que nosso segredo seja revelado. E a situação fica ainda pior quando a vida de quem você ama também está em jogo. E se arrependimento matasse, Llewelyn já teria morrido. O remorço que ele sente pelo peso de suas ações já não o permitem ter uma boa noite de sono.

Não há fuga sem rastros. É nesse momento que a decisão narrativa dos Coen gerará resultado. Já sabemos que não há limites para o Anton, que parece agir com um instinto animal. Calculista, frio. E de tanta insensibilidade e crueza que nos é mostrada logo no início, tememos pela fragmentação de nossa própria sanidade. Tudo isso é realçado pela constante sensação de perseguição, os pequenos detalhes, insegurança.

Provavelmente você já ouviu a expressão “depois da tempestade, vem a calmaria” – pois é, aqui é o contrário. Ficamos tão intrigados para a chegada do clímax que mal nos centranos no presente, e qualquer coisa fora do lugar, assusta, e muito. Em determinada cena, Llewelyn se muda temporariamente para um pequeno motel, e observa o estacionamento pela janela de seu quarto. Está tudo calmo. Calmo até demais. E a especulação se mantém até mesmo em cenas explosivas, quando o uso de silhuetas, mas um grande acerto na fotografia do Deakins, entra em jogo.

A lei do acaso parece ser o que vai definir a rota do Anton, que decide se mata ou não a vítima usando o clássico jogo do “cara ou coroa” – mas mal esperando que o feitiço irá contra o feiticeiro, quando em determinado momento, ele sofre um inesperado acidente de carro. E isso, pouco depois de passarmos um seguimento inteiro acompanhando todos os personagens se recuperarem (físico e mentalmente) após um exausto dia – coisa que não é sempre que se vê em um filme casual, aliás, ao esperar um conflito épico no final, os Coen simplesmete seguem por um caminho completamente diferente, podendo afastar aqueles que não compraram a ideia – até porque, uma das palavras que definem o filme, além de imprevisibilidade é: Niilismo.

Quando o personagem do Woody Harrison, um homem de negócios, entra na história com o objetivo de fazer uma proposta com o Anton, é encurralado pelo mesmo. E com o silêncio ao decorrer da cena (aliás, ausência de trilha-sonora durante o filme inteiro) – sabemos que não haverá uma esperança, uma luz no fim do túnel – aliás, não há um Deus no lugar onde os fracos não têm vez.

Veredito

O jovem clássico dos Coen é talvez um dos mais atmosféricos, enervantes e imersivos Thrillers já feitos.

10/10.

Anúncios

Crítica: Never Rarely Sometimes Always (2020)

Aviso: Crítica sem spoilers!


“Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” – não é apenas o título do filme traduzido, como é também um guia de respostas para um questionário nada agradável. Uma sensação de labirintite constante. Um retrato cru e fiel de uma adolescente no século XXI, sua jornada, e suas escolhas.

Autumn tem dezessete anos, e trabalha como atendente de caixa numa mercearia. Após fazer alguns exames, descobre estar grávida de dez semanas, e viaja praticamente com a roupa do couro para Nova York com sua prima e companheira, Skylar, para realizar um aborto.

Desprovida de qualquer suavidade narrativa, a sensação de vazio existencial é levada por uma direção que incomoda, que capta a imagem sem artificialidades. São enquadramentos fechados, apertados (é raro ver planos abertos) que nos fazem sentir perdidos, ver que ninguém ali está se divertindo. Mas nunca perdendo a sensibilidade.

E curioso que: o dinheiro que elas usam para poder pagar a passagem foi roubado do seu chefe pervertido Рenquanto todos os problemas do filme giram em torno dessa mesma quesṭo. As dificuldades rotineiras vindas pelo simples fato de ser mulher. E a diretora Eliza Hitman ṇo faz a menor quesṭo de ado̤ar nada.

A fotografia com cores pastéis, quase mortas, assim como o céu constantemente nublado, parecem perseguir as personagens. O texto do filme é tão bem inserido que nem parece estar no roteiro. E se um rapaz não sabe os limites de uma “simples cantada” – mal sabe ele estar cometendo um assédio. E infelizmente, essa subtrama surge com certa veracidade. Pois não há mentiras ali.

E se esse tema é contornado de forma poderosa por um gesto inebutável e acolhedor pelas protagonistas, o mesmo pode se dizer do argumento central. Em nenhum momento há uma exposição narrativa insinuando que a mulher é a dona de de suas escolhas. Isso é refletido quando, na frente da clínica, há um protesto cristão contra o aborto, e necessitando passagem, elas passam por entre o grupo, em silêncio.

Mas se essa realidade abstinente parece abaladora, a diretora foca em apreciar as primas indo para uma padaria, contando o pouco dinheiro que têm para fazer alguns pedidos. E mesmo sem muitos diálogos, há uma emotividade encantadora ali. Ausência de diálogos que até mesmo está presente na hora que elas decidem fazer a viagem. Aliás, nós não precisamos concordar com as escolhas delas. Devemos respeitar.


Veredito

Com performances absurdas da Sidney Flanigan e Taile Rayder, e alguns momentos chocantes, Never Rarely Sometimes Always irá comover e impressionar, até que a ficha de que tudo aquilo é uma realidade, caia. Obra-prima.

10/10.