Crítica: Tom & Jerry: O Filme (2021)

Aviso: Crítica sem spoilers.


Tim Story e a gag como motor da narrativa.



Tom & Jerry: O Filme é, sobretudo, um tributo a série de curtas-metragens animados de mesmo nome. São vários os elementos referenciados da série, como a participação de diversos personagens clássicos da franquia. A rica variedade de sons dos cartoons é restaurada com os barulhos de explosões, bordoadas, pancadas e os famosos gritos escandalosos de Tom. Não por acaso, a decisão de preservar o design animado em 2D dos personagens é uma clara ação de conservar a série animada para, assim como os curtas de Hanna e Barbera, explorar gags da dupla de gato e rato se perseguindo e se digladiando, com os ambientes, criados com CGI, se redefinindo com a ação da dupla. É notável a nostalgia e o apreço que o diretor, Tim Story – responsável pelos dois primeiros Quarteto Fantástico -, tem por esses personagens e por essa franquia.


Se por um lado, o longa é conservador por preservar esse estilo de animação, por outro, ele é revigorante e até mesmo uma oposição por rejeitar a demanda de mercado que prega o 3D e personagens fotorealistas – como O Rei Leão, de 2019, e Sonic: O Filme, que, assim como Tom & Jerry, coloca o animal para interagir com pessoas no mundo real. O grande mérito de Story, portanto, está em como ele anima seus personagens. É recorrente no cinema hollywoodiano, em especial as adaptações de quadrinhos e video games, a rejeição aos elementos fantásticos em detrimento do realismo – no caso da adaptação de Sonic, o ouriço azul foge de seu mundo fantasioso e enfrenta Dr. Eggman no mundo real -, mas Story não foge do cartunesco de Tom & Jerry, pelo contrário, ele o abraça.

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Divulgação/Warner Bros


Por sinal, os melhores momentos do longa são os que remetem aos cartoons clássicos, com gags do gato e o rato perseguindo um ao outro, onde Story por demais estica as cenas com planos longos, dando liberdade para movimentação da dupla em meio aos cenários. A gag se transforma no motor que move a narrativa, com um segmento mais divertido e criativo que o outro – por mais que seja, em suma, sempre o gato perseguindo o rato, cada gag tem sua particularidade e o que a faz especial.

Outro mérito de Story é saber equilibrar o tempo de tela entre seus personagens. Por se tratar de uma mistura entre animação e live-action, ao estilo Space Jam, era necessário uma figura humana de protagonismo para contracenar com a dupla – como Michael Jordan, no caso de Space Jam -, e a tarefa ficou com a carismática Chloë Grace Moretz. O diretor foi eficiente e soube dividir o protagonismo, dando “palco” para a estrela principal da produção, mas sem fazer com que Tom e Jerry fossem apagados por ela. O problema, no entanto, é um recorrente em produções hollywoodianas: o drama humano genérico. Temos criativas gags e personagens interessantes, mas isso em meio a um drama humano que, sinceramente, não importa.


Em suma, o longa tem vários méritos por ser inventivo ao se opor às demandas de Hollywood, mas seu calcanhar de aquiles reside justamente no modelo fabricado pelo cinema norte-americano. Assim como é interminável o ciclo de perseguição entre Tom e Jerry – no final, mesmo após se tornarem amigos, o gato e o rato continuam a perseguir e aborrecer um ao outro -, é constante o ciclo das demandas narrativas que assolam as produções hollywoodianas, por mais criativas e bem intencionadas que elas possam ser.


Veredito

Tim Story proporciona um filme nostálgico e inventivo, suficiente para fazer a diversão do espectador, mas tropeça num problema recorrente de Hollywood.

6/10.

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