Crítica: Homem-Aranha (2002)

Aviso: Crítica sem spoilers!

O clássico inspira o clássico.


“Mas eu garanto que, como qualquer história interessante… ela é sobre uma garota”, diz Peter Parker (Tobey Maguire), em narração em off. Pela fala de Parker, o diretor Sam Raimi enuncia “abraçar” o romance. Mais que um mero filme de super-herói, Homem-Aranha é um filme de romance e, sobretudo, de fantasia.


Em 2002, era a época dos filmes de fantasia – antes mesmo dos Sci-Fi e dos super-heróis tomarem as telas do cinema -, com O Senhor dos Anéis, Harry Potter e os filmes de Tim Burton. A exemplo das obras mencionadas, Raimi não se compromete com o realismo e com a verossimilhança – como os filmes do Batman de Christopher Nolan -, a fotografia saturada, as atuações hiperbólicas e os próprios poderes do Homem-Aranha evidenciam isso. A intenção do diretor é simplesmente narrar uma estória surreal e romantizada do herói. E Raimi é um ótimo contador de estórias, aliás. Ele consegue fazer de uma estória simples de herói contra vilão e de um amor improvável ser fascinante com sua energia particular na direção – e ele o faz usando uma rica linguagem (close-ups, contraplanos, slow-motions).

Superman – O Filme, claro, influencia todo e qualquer filme de super-herói. É indubitavelmente um clássico do cinema. E o Homem-Aranha de Raimi parece se inspirar na obra de Richard Donner em diversos aspectos: 1) Raimi não usou apenas as estórias de Stan Lee e Steve Ditko para contar a origem do herói como, certamente, se inspirou no filme de Donner para desenvolver os conceitos que fizeram Peter Parker se tornar o Homem-Aranha. É a completa estória de origem; 2) O romance entre Parker e Mary Jane (Kirsten Dunst) recebe a devida atenção de Raimi, assim como Donner se concentra na relação de Superman e Lois Lane. A exemplo disso, a memorável cena do Superman levando Lois para voar, quase como um encontro romântico, é visivelmente reproduzida por Raimi com o Homem-Aranha levando Mary Jane pelos prédios de Nova York. E, não à toa, os finais de ambos os dois filmes terminam com o herói salvando sua amada; 3) A caracterização dos personagens na obra de Raimi é semelhante ao clássico de 1978, com personagens caricatos – e isso não os fazem superficiais, pelo contrário, são personagens ricos – e cartunescos. O próprio vilão, o Duende Verde, interpretado exageradamente por Willem Dafoe, é caricato bem como os cientistas loucos dos anos 1930. Ambos são exemplares de épocas mais românticas. Eles abraçam o romance, a caricatura dos personagens e, principalmente, a fantasia. São como duas histórias em quadrinhos transportadas para as telas.


Mais que semelhanças, são inspirações. É como afirma o químico Antoine-Laurent Lavoisier: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.


Para não dizer que a obra é perfeita, há uma quebra no ritmo na passagem de Peter Parker se formando no colégio e começando a agir como Homem-Aranha, dando a impressão de ciclo completo. O confronto entre Parker e o bandido no prédio abandonado soa como o clímax daquele breve arco sobre grandes poderes e grandes responsabilidades. O que vem a partir disso parece ser um segundo filme, como se fossem dois filmes em um só.

O essencial, no entanto, são os momentos memoráveis, os personagens caricatos marcados no imaginário popular e, principalmente, essa constante referência ao clássico, articulada de forma própria e romantizada por Sam Raimi, um grande contador de estórias.


Veredito

Reverenciando o clássico, Sam Raimi desenvolveu uma obra que marcou época e se tornou uma referência para os filmes de super-herói.

9/10.

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