Crítica: Malcolm & Marie (2021)

Aviso: Crítica sem spoilers!


Não é difícil ser grato. Mas é comum não sermos agradecidos por pequenos gestos de quem convive conosco. Malcolm & Marie flui com base em como somos tão ingratos e nos importamos tanto com pequenas falhas dos outros. Aliás, nenhum “obrigado” é tão frequente quanto um “faça direito!” – essa é a essência humana.

A trama econômica evolui ao som de um jazz melódico que realça a estética sofisticada. Tendo como cereja do bolo o fato de inter-dialogar com o próprio cinema, retrata como há uma onipresente reflexão, mesmo que indireta, da vida real, independente da trama ou contexto histórico, cada filme pode ser um retrato de sua sociedade ou época, assim como há aqui o aberto discurso para maior representatividade na indústria.

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O visual requintado dialoga muitíssimo bem com uma química de sedução constante – isso quando não alterna entre momentos de histeria. Além da cinematografia de Marcell Rév, que ajuda a estabilizar a moderna ambientação. Diante disso, as performances são extremamente concisas e convincentes, circulando perfeitamente bem com a composição e tom criados, onde nenhum se sobrepõe do outro.

E é tudo uma questão de valorização: Malcolm (John David Washington) após retornar da sessão de estreia do seu novo filme junto de sua noiva, Marie (Zendaya) passa por uma discussão quase interminável, que recapitula erros passados, como se algo os impedisse de demonstrar consideração pelo presente.

Até que em determinado momento, o vai e vem pode soar repetitivo, já que não há muitos pontos na trama a se decorrer. Mas nada muito diferente do que nossa própria rotina: indecisões frequentes, despertar de coerências, gatilhos – é pura angústia, mas isso é porque somos carentes demais, nunca estaremos satisfeitos o bastante.

Isso se reflete bem na cena em que Malcolm, tomado pela ansiedade, se altera ao ler uma crítica recém lançada de seu filme. E ainda por cima, a crítica era positiva. Isso nos faz perder o velho ditado: “O que vem de baixo não me atinge” – quando qualquer oportunidade, como as oferecidas ao próprio Malcolm, são auto-insignificantes.

Isso desperta, involuntariamente, uma sensação culposa de ciúme por quem está ao seu redor. Talvez por isso, os dilemas apresentados à personagem da Zendaya possam ser mais delicados, ainda mais quando em certo ponto, fica subentendido o início melancólico de seu relacionamento, que é certamente o ápice emotivo do longa, que por sinal, acerta em cheio ao deixar diversas outras circunstâncias externas implícitas.

De modo geral, com movimentos de câmera e uma atmosfera luxuosa, mesmo sendo um pouco auto-indulgente, o talentoso diretor Sam Levinson, da série Euphoria, não conta apenas com o carisma de seu elenco para trazer uma obra mais do que satisfatória.


Veredito

Simples e eficaz, Malcolm & Marie trabalha seus temas de forma inteligente, carregado por atuações de alto nível.

9/10.

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