Crítica: A Escavação (2021)

Atenção: Crítica sem Spoilers!

A nova aposta da Netflix funciona como uma versão clichê de Sangue Negro – mas não que seja necessariamente ruim. E lógico, a comparação radical demonstra bem a estratégia que a plataforma de streaming milionária vem preparando para 2021.

Se tematicamente lembra a obra-prima dirigida pelo Paul Thomas Anderson, esteticamente está a anos-luz de igualar-se. E até que inicialmente, alguns tracking shots utilizados pelo diretor Simon Stone arriscam garantir certa imersão, mas a instabilidade na narrativa e na composição estilística afetam na identidade do produto. Claro, nada muito diferente do que a Netflix vem apresentado para seu público médio. Aliás, até pode-se dizer que aqui há uma mínima tentativa de diferenciar-se de tal. E nessa perspectiva, o conjunto final pode sim ser encaixado como funcional.

Boa parte disso se deve por um elenco que parece estar confortável. Em especial, o Ralph Fiennes (Voldmort da saga Harry Potter) carrega uma experiência convincente e carisma ao ponto. Sua relação com a personagem da Carey Mulligan, mesmo soando incompleta, mantém seu núcleo por boa parte estável, já que sua problemática fica em segundo plano até o terceiro ato. E se há algum senso de preocupação, é rasteiro, e emocionalmente não é carregado como deveria pela performance do ator mirim Archie Barnes, que está longe de impressionar, tornando claro então, este não ser o principal objetivo a ser alcançado pelo longa.

O roteiro adaptado do romance baseado na história real escrito por John Preston situa-se nas vésperas da segunda guerra mundial, e acompanha uma mulher que após a morte de seu marido, contrata um arqueólogo para escavar as terras por trás da casa. Logo, com a introdução de novos personagens, que de nada vital acrescentam, o melodrama de poucas substâncias vive de sua ambientação, que gera sim tomadas interessantes. Mesmo sóbrio em seu caminho, constantemente tenta se auto celebrar, utilizando os conflitos internos da época como pano de fundo básico, muitas vezes narrado, além da ausência de algo estar em jogo que tira qualquer peso, mas não um ar de jornada a ser enfrentada. No contrário: é bastante simples, e foca fisicamente nos esforços do personagem do Fiennes, que não teve seu nome creditado no final da operação, dando então certa razão para a existência do filme.

E a escolha até seria válida, caso contivesse uma direção que trabalhase melhor pontos como ação – reação, manipulação do tempo e soubesse deixar balanceado todas as linhas que cria, como o pedestre romance envolvendo a personagem da Lily James, que apresenta uma boa caracterização não tão bem aproveitada, acompanhado por uma trilha sonora de pouca criatividade.

Mas se o drama morno não empolga, a montagem parece querer dar um valor a mais do que realmente vale. Mas nada de manipulação – na verdade, a estratégia é concisa e parece estar pisando em terra firme, até porque essa é a estrutura do filme: segmentos chamativos, estimulantes e organicamente alegóricos, com êxito na fotografia do Mike Eley, que traz vivacidade ao solo através de um céu constantemente fluorescente, com bom uso de silhuetas em belos takes ao anoitecer, que manifestam um clima agridoce e genuinamente confortável.

Próximo da finalização, toca brevemente em temas como ansiedade, o lidar com a morte – mas sem se aprofundar muito, prejudicando um pouco na firmação da nota final, que não sabe bem qual reação dar. Inegavelmente com alguns acertos, de modo geral a obra vai agradar seu público alvo, e ao menos, não deve incomodar aqueles mais exigentes.

Veredito

Tendo como base boas cenas isoladas e performances dedicadas, certamente há o que se gostar em A Escavação, uma aposta válida da Netflix. 

6,5/10.

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