Crítica: Onde os Fracos Não Têm Vez

Aviso: Crítica sem spoilers!



Não são todos os realizadores cinematográficos que compreendem a importância de respeitar a imaginação do espectador. A ausência de um personagem explicando o que está acontecendo toda hora gera não apenas um maior entrosamento entre o público com o que está sendo apresentado em tela, como estimula também nosso raciocínio.

É baseado nisso que a adaptação homônima de 2007 do romance Onde os Fracos Não Têm Vez, escrito por Cormac McCarthy, entra em destaque.

Roteirizado e dirigido pelos Irmãos Coen, que desde pequenos são apaixonados pela sétima arte, não vêem muita diferença entre brincar com suas câmeras e fazer seus filmes amadores quando crianças e dirigir um longa-metragem de alto orçamento e com um elenco de peso.

“Não irei apostar minhas fichas em algo que não sei onde vou me meter. Prefiro dizer: tudo bem, farei parte desse mundo.”

O convite: o filme inicia com a narração do xerife Ed Tom, que mesmo já tendo idade para se aposentar, persiste em permanecer no departamento de polícia do Texas. Suas palavras são ouvidas em imagens belíssimas do amanhecer, fotografadas por ninguém mais, ninguém menos que Roger Deakins. A cada take, temos em média um avançar de 5 minutos, e diversos panoramas privilegiados dos primeiros raios de sol no relevo texano. Em seu monólogo, Ed Tom comenta a mudança dos tempos, e o quão inexplicáveis e cada vez mais sanguinários são os crimes que vemos hoje. E já pelo seu tom de voz, percebemos que aquele xerife já percorreu muitas estradas, e mesmo eficaz em seu trabalho, não deixa de transmitir uma certa vulnerabilidade sensibilizante. Nisso, a escassez por informação se revela um mal inevitável – estar perdido em meio ao caos aterroriza. É se sentir insignificante, nulo – assim como a maioria das paisagens que nos são apresentadas: abertas, amplas, com poucos elementos, como se algo precisasse ser preenchido ali – mesmo nada podendo ser feito. E mais para frente, entenderemos como isso será rebatido.

Quando perguntado pelos Irmãos Coen se aceitaria o papel do vilão do filme, Javier Bardem respondeu: “Eu não falo inglês direito, não sei dirigir e sou feio” – logo, eles retrucaram: “E é exatamente o que precisamos”. E quem dera que este renderia seu Oscar no ano consecutivo.

O Western moderno dos Irmãos Coen não demora nem um pouco pra começar. Já na segunda cena, testemunhamos o assassinato brutal de um policial, pelo então antagonista psicótico, Anton Chigurn (Bardem). Mas a escolha de apresentar o vilão antes do protagonista tem motivo: gerar ameaça – nos dar consciência do perigo que está por vir com antecedência.

Na cena citada anteriormente, antes de morrer, o policial novato está numa ligação: “Está tudo sobre controle” – dizia ele, e ao colocar o telefone no gancho, acaba por ser sufocado por Anton. Isso diz muito sobre a insegurança que é gerada ao decorrer dos desdobramentos. Nunca sabemos quem está no controle da situação. Uma jornada de inconsistência e agonia.

Nosso protagonista, Llewelyn Moss (Josh Brolin) é apresentado em uma posição de superioridade. O mesmo encontra-se no alto de uma colina, caçando – sem esperar que em determinado momento, ele se tornará a caça. Em sua posição, é de extrema importância que a audiência simpatize com ele, e tema pela sua vida. E em alguns segundos, o acompanharemos por uma série de decisões que igualmente nos estimulam.

Llewelyn acaba de ver um rastro de sangue que se estende até um Pit-Bull agonizando, baleado, tentando se arrastar. Logo, ele avista um cenário de tiroteio. Ninguém está vivo. E lá, encontra uma maleta com 2 milhões de dólares. Ele sabe que se pegá-la, as consequências virão. Mas perde a luta para si mesmo, e a leva para casa. E convenhamos. Objetivamente, sabemos que não foi uma boa escolha. Mas em nenhum momento isso nos desconecta, porque o principal acerto na composição desse personagem é: ele é humano. Comete falhas. E da tamanha veracidade que nos é apresentada, e sabendo o mesmo da situação quanto Llewelyn, ficamos à par de suas ações, e gerando expectativas cada vez mais altas, até porque muitos dos acontecimentos-chave no longa são incrivelmente omitidos. Presume-se que algo aconteceu ali, mas nada nunca é revelado. Isso faz com que aos poucos, vamos montando as peças do quebra-cabeça, até cair a ficha de que a qualquer momento, algo pode dar errado.

E a que horas chegarão em minha porta? – É a pergunta que não sái da mente. Quando fazemos alguma coisa de errado, tememos que alguém descubra, que nosso segredo seja revelado. E a situação fica ainda pior quando a vida de quem você ama também está em jogo. E se arrependimento matasse, Llewelyn já teria morrido. O remorço que ele sente pelo peso de suas ações já não o permitem ter uma boa noite de sono.

Não há fuga sem rastros. É nesse momento que a decisão narrativa dos Coen gerará resultado. Já sabemos que não há limites para o Anton, que parece agir com um instinto animal. Calculista, frio. E de tanta insensibilidade e crueza que nos é mostrada logo no início, tememos pela fragmentação de nossa própria sanidade. Tudo isso é realçado pela constante sensação de perseguição, os pequenos detalhes, insegurança.

Provavelmente você já ouviu a expressão “depois da tempestade, vem a calmaria” – pois é, aqui é o contrário. Ficamos tão intrigados para a chegada do clímax que mal nos centranos no presente, e qualquer coisa fora do lugar, assusta, e muito. Em determinada cena, Llewelyn se muda temporariamente para um pequeno motel, e observa o estacionamento pela janela de seu quarto. Está tudo calmo. Calmo até demais. E a especulação se mantém até mesmo em cenas explosivas, quando o uso de silhuetas, mas um grande acerto na fotografia do Deakins, entra em jogo.

A lei do acaso parece ser o que vai definir a rota do Anton, que decide se mata ou não a vítima usando o clássico jogo do “cara ou coroa” – mas mal esperando que o feitiço irá contra o feiticeiro, quando em determinado momento, ele sofre um inesperado acidente de carro. E isso, pouco depois de passarmos um seguimento inteiro acompanhando todos os personagens se recuperarem (físico e mentalmente) após um exausto dia – coisa que não é sempre que se vê em um filme casual, aliás, ao esperar um conflito épico no final, os Coen simplesmete seguem por um caminho completamente diferente, podendo afastar aqueles que não compraram a ideia – até porque, uma das palavras que definem o filme, além de imprevisibilidade é: Niilismo.

Quando o personagem do Woody Harrison, um homem de negócios, entra na história com o objetivo de fazer uma proposta com o Anton, é encurralado pelo mesmo. E com o silêncio ao decorrer da cena (aliás, ausência de trilha-sonora durante o filme inteiro) – sabemos que não haverá uma esperança, uma luz no fim do túnel – aliás, não há um Deus no lugar onde os fracos não têm vez.

Veredito

O jovem clássico dos Coen é talvez um dos mais atmosféricos, enervantes e imersivos Thrillers já feitos.

10/10.

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