Semana Heroica #3: Super-Choque | O que tornou o herói um dos maiores de todos os tempos

Uma animação que, com certeza, estava à frente de seu tempo. Todos os envolvidos conseguiram trazer questões sociais de forma sutil ao mesmo tempo que não fosse forçada. Dito isto, é uma animação com um grande impacto até mesmo comparado à filmes como Pantera Negra e Olhos Que Condenam, o racismo, a ignorância e a violência não foram salientados apenas de uma maneira que as crianças pudessem entender, mas de uma maneira que faria com que os adultos pudessem carregar em suas mentes.


História

Você e eu provavelmente crescemos no início dos anos 2000, com as nossas manhãs recheadas de desenhos animados, mas esse foi sim, um desenho que conseguiu nos cativar e que nos faz parar pra pensar e refletir com as questões sociais até hoje. Mas tudo isso não começou aí, e é preciso dar uma volta no tempo muito antes do personagem fazer sua estréia nos quadrinhos.

Tudo começou em 1993, uma aliança composta por artistas e escritores afro-americanos, acreditando que as minorias eram muito mal representada nas mídias e assim fundaram a Milestone Media, para que pudessem retratar como é a vida da sociedade negra. Super-Choque estreou em sua própria revista intitulada Static #1 em uma leva de lançamento dos cinco primeiros heróis da Milestone.


Inspiração

Dwayne McDuffie, um dos criadores do personagem, afirmou que foi um grande esforço da equipe para sua criação. Uma das inspirações para sua criação veio do Amigo da Vinzinhança, o Homem-Aranha: um adolescente desajeitado, que tem problemas com dinheiro e garotas, além de valentões que estão sempre querendo puxar briga. Inicialmente os planos que a Milestone tinha é que o herói seria vendido para a Marvel, mas que graças (ou quase isso) a Milestone seria adquirida pela DC Comics.

Como você pôde ter percebido, o seu nome é bem diferente do que costumamos pronunciar. Static no original significa estático (ahhh sabichão!), e é inspirado no single Staticde 1988 escrita por um grupo
musical do Brooklyn, Full Force e cantada pelo ícone da música R&B, o Padrinho do Soul, James Brown. Uma das críticas ao álbum feita pela revista People exaltou o single como “incendiário”. Já o seu alter-ego foi inspirado em Virgil D. Hawkins, um advogado negro que passou as últimas décadas de sua vida indo à Suprema Corte para exercer advocacia na Flórida, depois de ter sido inicialmente negado a admissão na Faculdade de Direito da Universidade da Flórida por ter a cor negra como cor de sua pele.

Fazendo a Diferença

Assim como Batman e Superman são os maiores pilares da DC Comics, o Super-Choque era para a Milestone, e em tão pouco tempo se tornou o personagem mais icônico da editora, ganhando sua série animada em 2000, com uma versão do enredo que se tornou um pouco mais adequada para um público mais jovem daquela época. Um personagem assim não precisa de mais descrições para dizer a que propósito ele veio, não é um
relato de como “um branco enxerga o preconceito com o negro”, é um relato dramatizado de como a administração pública BRANCA se importa com as necessidades de uma sociedade composta por negros e qual o tratamento que dão a eles como “merecido”.

Seu legado

Para falar da administração pública retratada nas histórias desse personagem, primeiro é preciso falar sobre o enredo do primeiro episódio. “Choque no Sistema”. Esse foi o nome dado ao primeiro episódio da série animada. Virgil, um adolescente como qualquer outro nos Estados Unidos é diariamente alvo de bullying, e pra se livrar do “cara” que o atormenta dia-após-dia, depois de apanhar desse mesmo valentão em um beco, a surra é interrompida por um amigo de má conduta que o leva à um encontro de gangues e lá recebe uma arma para “se livrar” de seu rival. Em pouco tempo, após dar de cara com o valentão, a polícia interrompe a guerra e então numa troca de tiros, a polícia acidentalmente (ou não) acaba atingindo botijões de gás inflamável, fazendo com que vários criminosos fossem alcançados pela
explosão do gás. Esse dia ficou conhecido como o “Big Bang“, onde vários personagens do Dakotaverse (como é chamado o universo fictício da Milestone) receberam seus poderes.

Bem, diferente um pouco da série animada, os policiais portavam um gás experimental que tinha a intenção de matar quem inalasse, só que o resultado foi bem diferente do esperado trazendo consigo muitos problemas e também o Herói de Dakota. Isso foi o primeiro passo para mostrar a violência policial, as operações feitas em suas comunidades, o tratamento, e talvez, as sentenças de morte que recebem como em alguns casos.

Super-Choque continuou interrogando e expondo a incompetência e a indiferença dos que estão no poder, sem medo – isso tornou o herói diferente. Mesmo sendo político, ele não foi mal interpretado como muitos conteúdos que tendem a forçar sua abordagem. Outra questão que é colocada à mesa, é a liderança, da brutalidade policial à marginalização das comunidades minoritárias ao redor do mundo, prova que a liderança está quebrada. Desprovidos da humildade e inclusividade de que tanto precisamos, e dados ao narcisismo, os líderes não estão preocupados em apostar na saúde pública, na segurança e no futuro das gerações mais jovens. Eles priorizam, sem desculpas, servir a si mesmos sobre as pessoas para as quais foram eleitos.

“Se evitarmos questões como a perda de um ente querido […] Ignoramos os infelizes fatos da vida
de muitas crianças neste país”, Len Uhley, escritora da série animada.


Um acontecimento que aprofundou na abordagem sobre a violência foi a noite em que a mãe de Virgil morreu. No primeiro episódio da série animada, contou que ela havia sido morta numa guerra entre gangues, mas ainda foram pouco os detalhes. Em um episódio intitulado “Flashback” foi revelado que ela foi uma paramédica, vítima da violência durante uma noite de tumultos entre gangues, e mesmo Virgil tentando impedir sua morte, ela é superada por sua necessidade de ajudar outras pessoas e logo voltou às ruas, levando ao mesmo futuro em que Virgil se encontrava antes.

O maior benefício do show fica por conta de seu idealizador, não apenas ter uma noção do que é viver sabendo que pode sofrer um ataque por causa de sua pele, mas que, grande parte das histórias vem de sua representação (Dwayne McDuffie).

Em um desses momentos, Virgil nota que ele nunca esteve na casa de seu melhor amigo, Richie, e se auto-convida a passar uma noite na casa do amigo para o desprazer de descobrir que o pai de Richie não passa de alguém que vê os negros como o grande problema da sociedade, discriminando os seus costumes, bem como estilo de música se referindo a eles não pelo nome de sua cor, mas pior do que isso: “Essa gente”.

Aqui, o escritor enfatiza de uma forma muito simples como a sua comunidade é vista perante outras áreas da cidade, sem fazer o mínimo esforço para entender o que se passa no local onde moram ou até mesmo justificando o seu erro: a raiva, a discriminação, o seu apontamento e sua violência contra a cor, alegando que esses são a fonte do problema da sociedade.


Um outro episódio abordou algo que é muito raro de se ver em qualquer filme, novela, HQs e literatura. Algo que até agora foi um pouco retratado de forma leve no filme Homem-Formiga, é a busca por uma segunda chance que muitas pessoas buscam encontrar após sair da prisão.

E na verdade isso não foi abordado uma só vez, mas duas. A primeira vez no episódio “Bent Out of Shape”, onde Virgil descobre que sua irmã namora um fora-da-lei, o Homem-Borracha (ou no melhor possível, Rubberband Man), levando a polícia a perseguí-lo e ser apreendido. Mais tarde, no episódio “Bad Stretch”, o Homem-Borracha se mostra mais arrependido de seus crimes do que no episódio anterior e decide largar a vida de criminoso para iniciar sua carreira no combate ao crime.

Esse episódio foi um dos que mais se destacaram, porque não só a sociedade retratada no desenho estava desconfiante nele, assim também como o próprio Super-Choque e quem acompanhou o desenho de perto, eu.

Particularmente, considero tanto as primeiras aparições do personagem, quanto esses dois episódios um arco. Mostrou toda sua trajetória pelo caminho tortuoso, para depois, indicar que ele tinha valores e que todos merecem uma segunda chance, além de nos ensinar um pouco a respeito das más impressões que temos sobre pessoas de passado condenado.

Outro grande ponto memorável que com certeza, eu e você podemos nos identificar no país em que vivemos. Em um certo momento a trama se desenrola em volta de uma empresa que foi encarregada de criar o gás que causou o “Big Bang” (o dia em que o Super-Choque e seus vilões ganharam habilidades especiais).

Junior, filho do proprietário da empresa sempre foi negligenciado pelo pai e sempre buscou ganhar a confiança do pai, e um dos métodos que usou foi estudar o gás, mostrando para seu pai que era um gênio. Assim, com os estudos do gás ele adquiriu vários poderes e usou tudo o que teve para arruinar a empresa de seu “velho”.

No fim de tudo isso, você fica se perguntando: “Se uma empresa fosse o fator que levou vários jovens a se tornarem um grande problema para a sociedade, ela estaria encrencada e talvez poderia fechar as portas. Porém, como foi mostrado, as empresas raramente são responsabilizadas por seus atos, especialmente nesse sentido.

Continuando ainda a falar sobre os momentos mais memoráveis dessa atração, o episódio, que, com certeza ninguém esquece foi a abordagem sobre o bullying que é bem típico nas escolas dos Estados Unidos.

“Jimmy”, é um episódio e personagem-título que não poupou em mostrar a verdade como deve ser mostrada. Tudo começa com sem a mínima explicação. Richie está agonizando de dor e sendo levado por paramédicos para um ambulância, logo após isso, Virgil é visto conversando com um psicólogo e então tudo se esclarece na forma de flashbacks. Ele fala sobre um garoto com quem fez amizade no colégio, que estava sendo intimidado por um grupo de adolescentes, além de que não tinha ninguém que pudesse defendê-lo. Certo dia, Virgil e seu parceiro, Richie resolvem ir a casa de Jimmy e então, eles são apresentados à uma arma pelo garoto, que deixa Virgil irritado, justo pelo fato de ter sua mãe como vítima da violência, e então vão embora.

Novamente, Jimmy é atacado pelos opressores que o faz chorar de raiva. Então, como forma de vingança, Jimmy vai até seus agressores e os tem sob a mira da arma apresentada anteriormente. Tudo deu errado e Richie foi acidentalmente atingido. Para nossa surpresa, Richie foi atingido na
perna, mas tudo isso serviu para mostrar até onde a violência é capaz de levar as pessoas. No fim, o herói deixou dicas de como evitar que coisas desse tipo aconteçam nas escolas,além de oferecer sugestões de segurança com armas e esforços anti-bullying.

No fim, animação da personagem teve muitos outros valores que poderiam ser mencionados, mas que com certeza teria de ser descritos em um roteiro maior além de destacar tudo que estava sendo transmitido em cada episódio.

Algo que eu não poderia deixar de falar…

Algo que não pude deixar de dar atenção foi o fato do personagem Richie ser abertamente homossexual nos quadrinhos, mesmo que na série animada, nunca tenha deixado isso claro. Isso põe uma questão à mesa:

Será que as pessoas, no início dos anos 2000, eram ignorantes demais para uma animação abordar esse tipo de proposta e ser alvo de críticas de como esse assunto pudesse ser uma forma ruim de que a mídia estivesse tentando influenciar as crianças na época? Ou que talvez, os executivos não estavam nem um pouco preocupados em mostrar essa realidade já que, pudessem ter problemas em faturar com brinquedos e produtos licenciados da marca? A minha resposta são as duas questões, ou melhor, as duas questões são uma mesma resposta.

Se esse assunto fosse abordado nessa época, e que com certeza, ninguém ficaria contente afirmando que uma animação assim pudesse ser uma má influência para os seus filhos, os executivos deixariam de lucrar com os produtos licenciados de seu personagem. Isso seria um grande problema, fazendo com que a animação não chegasse ao seu número de temporadas, já que foi dito que, seu cancelamento só ocorreu porque o produto não conseguia vender.

Então dito isto, as pessoas dos anos 2000 não estavam preparadas para essa abordagem, o que prova que o Super-Choque esteve à frente de seu tempo. Ainda assim, depois de tantos anos, fica difícil saber como as pessoas souberam lidar abertamente com esse tipo de assunto, já que a década de 2010 foi um pouco cedo demais para uma década anterior, onde trazer essa proposta era um risco enorme, principalmente se a questão é ganhar dinheiro.

Observações

O que torna o herói mais interessante é como ele era diferente de outros super-heróis negros da época e, de certa forma, ainda é. Embora exista uma variedade de personagens negros de quadrinhos, muitos deles se encaixam em arquétipos negros testados e comprovados: Luke Cage um street tough que funciona como uma espécie de segurança, Pantera Negra, um estrangeiro, Ciborgue, um atleta. E o Super-Choque se afasta desses moldes.

Sobre os personagens principais

Virgil Hawkins – O alter-ego do Super-Choque, possui apenas 15 anos de idade, é o típico garoto desajeitado, que precisa de dinheiro, e ainda está aprendendo a lidar com o fato de não saber “conquistar” as garotas, além de ter problemas com valentões. Seu maior valor talvez seja o maior código de conduta de todo bom super-herói como Superman, Batman e Capitã-Marvel que não é tirar a vida de alguém por pior que seja. Por causa da morte de sua mãe ele tem o pavor de armas, assim como repudia a violência.

Richie – nascido Richard “Richie” Osgood Foley, além de melhor amigo é um sidekick do Super-Choque, o persongem se mostrou ser um gênio e um ótimo aluno no decorrer da série. Mais tarde, é mostrado que as roupas de Virgil, ainda contendo resíduos do gás do “Big Bang” infectando Richie com o gás dando, à ele aumento de seu QI, fazendo com que ele se torne o Gear.


A primeira parte da Semana Heroica começou em nossa página no Instagram, com uma cena de um dos episódios, seguida do vídeo de origem do Super-Choque no quadro CR Origens, do canal, sendo esta a segunda parte. Veja abaixo:

Em nosso Instagram, explicamos do que se tratava a Semana Heroica. Deixaremos abaixo o post explicativo em nossa página:

 

https://www.instagram.com/p/CBvdstQDw3_/?igshid=4np03sgp1tr

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