Crítica: Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

Aviso: Crítica sem spoilers!


Que filme fantabuloso!


Depois do desastroso Esquadrão Suicida, a DC fez questão de tentar enterrar o filme e fazer com que os fãs o deixassem em esquecimento. Mesmo com defeitos, o filme teve um ponto positivo que a editora fez questão de salvar. Seu nome? Arlequina.

Com isso, a nova aposta da editora foi fazer um filme especialmente para a vilã, tentando desvencilhar da ideia do Esquadrão e do Coringa esquecível de Jared Leto. Boa parte dos fãs queriam que ele fosse esquecido, mas que Margot Robbie não. Cathy Yan, então, entrou na jogada após a roteirista Christina Hodson apresentar seu trabalho. Seria mais um filme de heróis dirigido por uma mulher. Claro que, um filme somente da Arlequina seria talvez uma loucura, justo por ela ser uma vilã. Mas, a ideia foi intrometer as heroínas junto dela, unidas uma a outra, criando a primeira equipe estritamente feminina de heróis nos cinemas.

Em Aves de Rapina, a Arlequina é, tanto narradora quanto a protagonista do filme. É realmente um filme sobre ela, já que no título diz “Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”. Ela procurava por emancipação, e seria do Coringa, após supostamente ter rompido relacionamentos com com o Príncipe Palhaço do Crime. Com isso, ela estaria livre para fazer o que quiser, sem que alguém estivesse a controlando. Entretanto, não era só a mulher que amava o Bobo do Genocídio que procurava isso, mas sim, mais três queriam liberdade. Uma detetive, uma justiceira e uma cantora. Todas queriam, ou se livrar das formas de abuso, ou procurar se libertar de um trauma.

Os flashbacks foram o ponto focal do primeiro ato, que pareceu bagunçado, mas, ao longo do filme, foi tudo se alinhando e formando a arte final. Ao meio de que Harley explicava sua situação diante da solidão presente, ela trombava com as outras protagonistas, relatando suas origens ou quem de fato são. O enredo moldou cada passo de todos os personagens, conseguindo unir os interesses de querer derrubar o vilão, Máscara Negra (Ewan McGregor).

Além da brilhante Arlequina, há ainda mais mulheres querendo emancipação, como dito no terceiro parágrafo. Renee Montoya (Rosie Perez), é uma detetive muito aplicada, que costuma sempre resolver os crimes. Ela não ganha seu crédito, passando tudo para seu antigo parceiro, que foi promovido para capitão. A Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), é cantora do clube do Sionis, no qual ela é intocável para o vilão, sendo um objeto apenas dele. Já a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), teve sua origem contada no filme, que parece ter pulado dos quadrinhos. Cassandra Cain (Ella Jay Basco) foi quem uniu a equipe, ou pelo menos três das quatro personagens. Num resumo rápido, Cain é uma menina pobre, que vive no mesmo prédio que Dinah Lance, e sai para roubar nas ruas, com sua habilidade em furtividade. Num momento ingênuo, ela rouba Victor Zsasz (Chris Messina), que estava encarregado de pegar o diamante para seu chefe, Roman Sionis.

O segundo ato já começa a desenrolar a história, conectando os relatos de Harley sobre as outras mulheres. As aparições da Caçadora por fora, buscando vingança de todos que mataram sua família, faz uma sub-trama muito interessante, e consegue se encaixar na trama principal. Assim como a Renee Montoya, que se interliga a cenas de assassinatos causadas pela Caçadora. Não demorou muito para as cenas de ação entrarem em prática, sendo tão memoráveis e divertidas quando vemos pelos olhos da Arlequina. A sequência da delegacia é, com certeza, a melhor de ação do longa, contando com uma trilha sonora marcante e uma fotografia invejável. A Rainha de Gotham explora seus métodos de combate com o uso de utensílios, arma e bastão para salvar a pele de Cassandra Cain, a qual o Máscara Negra estava atrás. Até pacote de cocaína voou.

Já que o Sionis foi mencionado, é preciso parar pra falar da incrível atuação de Ewan McGregor. Roman Sionis não passa apenas de um mafioso de primeira classe, mas um vilão quase terciário na galeria do Batman. Sionis vem de uma família rica de Gotham, que foi deixado de lado após fracassar na empresa de cosméticos do pai. Com isso, ele começou a carreira no mundo do crime com a herança que lhe foi deixada. O sadismo, os requintes de crueldade e desejo alheio das coisas o tornam ainda mais amedrontador, quando ao mesmo tempo, ele consegue ser carismático e tenta ser extrovertido. Victor Zsasz é o outro lado da moeda, pois é ele quem mata para o Sionis. Ambos tem uma grande conexão de ver o sangue escorrer. O conflito interno de Roman ao colocar a máscara, e o desejo de ter tudo na mão e um outro ponto positivo no vilão.

Encaminhando para o terceiro ato, o filme R-Rated da DC faz belas e memoráveis cenas de ação, coreografadas de forma espetacular. Sionis decide matar todas que estivessem ao lado de Harley, sem piedade, para caçar o diamante. As belas lutas que, sejam elas em conjunto ou individuais, fazem o filme ter um espetáculo de coreografia. A Caçadora, em especial, tem incríveis cenas com a besta e na Casa dos Horrores, palco da luta final. Mesmo com o tempo de tela curto, Helena rouba todas as cenas em que aparece, assim como a Canário quando se trata de lutar. A sequência de ação da Arlequina consegue ser as melhores do filme, explorando suas habilidades de ginasta e com patins. Aliás, por que não tivemos cenas de luta com patins e o martelo dela antes?

A estética de Aves de Rapina, em um todo, consegue ser perfeita para a proposta do filme. O longa não passa uma lição de moral perceptiva como alguns outros. Porém, o título fala por si só: “Emancipação”. Se libertar de algum tipo de abuso, seja ele físico, psicológico ou mesmo no trabalho, sem reconhecimento de seus feitos. O figurino, que remete até os anos 80 – caso da Canário Negro – é, de fato, um dos pontos positivos do filme, tanto a roupagem estilista de Sionis, quanto as novas formas da Arlequina mostrar sua persona.

Não só o figurino, mas a trilha sonora, com músicas inéditas tão boas quanto Esquadrão Suicida. Cathy Yan, também acerta num visual deslumbrante de Gotham, mostrando ela tanto ao dia, quanto a noite, e o quão ela pode ser sombria em certos momentos do filme. A pura diversão de Aves de Rapina se destaca como nenhum outro filme de herói, mas claro, tendo momentos de seriedade e muita brutalidade.


Veredito

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa relembra as histórias de Mad Love, de Paul Dini e Bruce Timm, trazendo uma Arlequina sozinha no mundo, independente do Coringa. A energia de Margot Robbie é contagiante aos ombros da personagem, que é protagonista em todo o filme. Ela nasceu para interpretar a Quinn. Jurnee, Mary Elizabeth e Rosie Perez, são coadjuvantes memoráveis, que conseguem garantir seu espaço ao decorrer do filme. Não só as heroínas, mas os vilões de Chris Messina e Ewan McGregor fazem jus aos quadrinhos. Principalmente Ewan, numa forma excepcional, se entrega para interpretar um Máscara Negra digno.

Embora o começo seja confuso, o encaixe final amarra tudo, sem deixar pontas soltas, mantendo a atenção do espectador, equilibrando diversão com ação e drama. A DC não teve medo de abraçar a ideia de fazer uma Arlequina sem amarras, um filme colorido e divertido pelos 109 minutos que parecem passar rápido. Os trailers não entregam em nada o filme. Com Aves de Rapina, a DC caminha para novos horizontes, podendo ter spin-offs, expandindo ainda mais seu universo nos cinemas.

9/10.